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PONTO DE VISTA
Tempestades em Alto Mar

     Tenho lido alguns livros recebidos no Natal. Vão desde Gabriel Garcia Marquez (Memórias das minhas putas tristes) a “A Sorte de Morgan” (Colleen Mccullough). O primeiro é fininho. Começa e termina num tempo só. O outro é encorpado e dá trabalho à noite, quando suportado em posição adequada à leitura. “A Sorte de Morgan” é uma obra metafórica, como todas, aliás, bastando ao leitor colocar-se dentro das histórias. Ressalto, a titulo de exemplo, “Memorial do Convento” (Saramago) e “Dona Flor e seus dois maridos” (Jorge Amado). Ganhei uma cachorra no dia dos pais. É uma “Sharpei” babona, mesma raça chinesa daquele que Roberto Delmanto deu de presente a Suzana, há pouco. Fábio e eu planejamos ligar os dois animais, quando for época. A cadela se chama “Blimunda”, em homenagem à personagem do livro de Saramago. Uma outra cachorra, já velhinha e manquitolante, se chama “Flor”, lembrando “Dona Flor e seus dois maridos”, um o farmacêutico (Obrigatoriamente às quintas, facultativamente aos sábados e domingos), outro o “Vadinho”, aquele que ficava em cima do guarda-roupa, pelado, já defunto, assombrando os sonhos de Flor. Já se vê que o raciocínio é, sobretudo, metafórico. Fixado na imaginação, portanto, conto uma passagem de “A Sorte de Morgan”: havia uma frota de navios ingleses, ou assemelhados, dirigindo-se a um lugar qualquer. A nau capitânea tinha o governador no comando. Precisavam atravessar a linha correspondente ao Trópico de Capricórnio. Bateu uma tempestade, coincidindo com a passagem do fim do ano. Os marujos se apavoravam, abraçando-se nos mastros e gritando em desespero. O governador foi convocado ao convés do navio líder. Tentou acalmar a tripulação. Consciente da inutilidade de esforços normais, desceu aos trancos ao camarote, pintou o corpo em azul, engalanou os cabelos com porções de sargaços encontradas nas bordas da embarcação e se enfiou pela metade na carcaça de um enorme peixe-espada pescado na tarde anterior. Assim paramentado voltou ao tombadilho e se expôs aos marinheiros na parte mais alta da proa.O governador tinha voz muito potente. Elevou-a acima dos trovões e começou a gritar: – “Eu sou Netuno, o deus do mar, onipotente e superior a tudo e a todos. Ordeno às ondas que se acalmem e aos monstros marinhos que poupem os meus marinheiros. Eu sou Netuno. Eu sou Netuno”.
     Os marujos, embasbacados, pararam de gemer e de espalhar horror. Fixavam o corpo meio nu do governador-capitão, curiosa mistura de homem e peixe, um fluxo de tinta azulada a lhe escorrer do rosto ao chão. Começaram a rir. Depois passaram a gargalhar, pois “Netuno”, resto de âncora na mão imitando tridente, parecia tudo, menos o imperador dos oceanos. Nisto, os raios se espaçaram e as águas se acalmaram. Voltou a luz. Reparados os danos no mastaréu e nas velas, a frota prosseguiu. O governador se desvencilhou da pele do peixe, foi ao cubículo que lhe servia de banheiro, lavou-se com um balde de água salgada, vestiu camisolão limpo e se deitou para descansar um pouco. Ia chorar, mas seria perda de tempo, porque havia outras tarefas a cumprir e o pranto lhe tiraria energias preciosas. Dali a pouco, a linha imaginária seria atravessada e um novo dia surgiria, com suas surpresas, dramas e alegrias. O governador fechou os olhos e dormiu.

Paulo Sérgio Leite Fernandes