CRÔNICA,
CONTO E PROSA...
Contos do mar
Quase todas as manhãs aquela menina,
menina moça com seus dezesseis anos,
de formas arredondadas, tez morena, cabelos
negros que soltos aos ventos mais parecia
uma deusa grega no seu sólio no
alto do Olimpo mirando aquele mar de azul
turquesa como sempre fazia.
Passava horas a fio no alto do penhasco
na espera da volta dos velhos barcos pesqueiros,
eram dezenas que todas as noites partiam
para o seu labor noturno, que era a pesca.
E sempre ao raiar do dia lá estava ela olhando o horizonte a esperar,
sempre a esperar ver entre as ondas surgir as primeiras valas, e ela ia contando-as
pois as conhecia pelas cores e pela quantidade dos barcos. Tão acostumada
estava que às vezes os contava pelos nomes dos pescadores pois conhecia
a todos, e para si mesma falava, hoje o primeiro foi o João, lá vem
o Pedro seguido de Antonio, que será que houve com o José?! ele
sempre está entre os primeiros e hoje ainda não apareceu?! que
será que houve, e assim passava o tempo catalogando um por um, e silenciosamente
os vendo passar agradecia a Deus após a chegada de todos.
Assim passava o tempo, passava a vida Maria naquela aldeia distante de velhos
pescadores, de homens que nasciam e viviam no mar, esta era sua vida a cuidar
do velho pai, pois sua mãe já há muito havia falecido,
e ela ao crescer tomou as rédeas da casa, e também dar maior
atenção ao pai, pescador idoso, mas forte, mãos calejadas
no manejo das velas, recolhendo-as ou içando-as nos mastros, tez curtida
pelo sol que mais parecia um peão sobre cela de um corcel, quando sobre
o convés com os volteios das ondas seu barco empinava para frente, para
os lados, para cima que dava a impressão que ia sossobrar tal a violência,
e ele lá, firme agarrado ao timão conduzindo seu barco. “O
Raposa do Mar”.
Certa vez Maria lá do alto, em sua contagem
regressiva sentiu a falta de alguém, notou a ausência de um dos
pesqueiros, voltou suas vistas para a praia e recontou os barcos, e pela bandeira
que encimava o mataréu
viu que faltava o velho “Raposa do Mar”, o pesqueiro que seu pai
comandava; um arrepio correu-lhe o corpo, um tremor fustigou-a dando-lhe uma
tontura e quase caiu, a vista nublou-se por instantes,
quis gritar o nome do pai mas faltou-lhe voz, e naquele desespero alguém
lhe tocou suavemente as costas e ela nem viu quem foi, aí lhe segredaram
ao ouvido, ela não veio Maria, e nem virá jamais! Uma grande
onda o arrastou para o meio do oceano e desapareceu com o temporal, quando
amainou a tempestade fizemos buscas sucessivas mas infrutíferas até o
amanhecer e nada foi encontrado; viu ela seu mundo desmoronar, porque agora
sem a mãe e sem o pai, o que seria da sua vida?
E desde aquela fatídica manhã, fez lá do alto do penhasco
o seu lar, e sempre a olhar para o mar, o tempo passou, os pescadores voltaram
a sua faina diária e aos poucos foram quase esquecendo do velho parceiro
de trabalho, mas uma cena os faziam lembrar deste acontecimento porque sempre
ao regressarem com o rebrilho dos alvores sobre o grande penhasco alguns viam
o vulto de Maria naquela interminável espera .Com o tempo ela também
desapareceu e assim esqueceram-na.
Mas até hoje alguns juram ver nas manhãs após grandes
borrascas seu vulto contra os reflexos do sol, chegam a ver seus cabelos esvoaçantes
com a brisa marinha, enquanto alguns dizem ser simplesmente miragem.
Esta é mais uma história como tantas contadas pelos velhos lobos
do mar .
OBS. ESTE TRABALHO RECEBEU MENÇÃO
HONROSA EM UM CONCURSO REALIZADO NO
SPORT LISBOA E FUZETA EM PORTUGAL.
Dalmir
Pena, natural de Barra do Piraí,
radicado em Volta Redonda,
delegado da União Brasileira de Trovadores – UBT.
Ocupa a cadeira
numero 1 da Academia Barrense de Letras,
premiado em diversos concursos em
Portugal
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