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O túmulo de Vitória
Camila, o primeiro feto a morrer
Janete, mãe de Camila
Maria Conceição, avó do David
Médico Mario Carneiro

Denúncia
Morte de bebês
Em menos de quatros meses três casos criam polêmica e discórdia entre hospitais e familiares

BARRA MANSA - O triste capítulo da novela da vida real que conta a história da morte de fetos no Hospital da Mulher (HM) continua. Hoje, são três casos de repercussão no município. Camila, Vitória e David são os personagens centrais dessa realidade.
O primeiro caso aconteceu no dia 19 de dezembro último, quando a gestante Janete Alves da Silva, 25 anos, grávida de 38 semanas, disse ter procurado o médico que acompanhou seu pré-natal, Mário Carneiro, afirmando estar sentindo muitas dores e que sua barriga estava muito baixa. Segundo ela, pediu para que seu médico fizesse uma cesariana, mesmo se tivesse que pagar, pois estava com medo de perder Camila. “Eu fui levada para o Hospital da Mulher pela ambulância do posto de saúde do bairro Vila Maria, pois não estava agüentando as dores e preocupada com meu bebê, já que eu já havia perdido outro filho, mas ele (médico) disse que deixaria minha filha nascer na data que achasse apropriado”, diz a mãe que foi enviada para casa, mas por volta das 20 horas retornou ao hospital sentindo muitas contrações e dizendo que não estava mais sentindo a filha.
Ela ainda afirma que sentiu falta da presença de seu médico na parte da noite, pelo fato de que após ele realizar a ausculta não o viu mais. Na manhã do dia 20, às 11 horas, foi encaminhada e internada na Santa Casa, pelo fato de a gravidez ser de alto risco, segundo Janete, que afirma que foi atendida e lhe foi pedida uma ultra-sonografia, sendo realizada no dia 21, constatando que Camila havia morrido ainda em seu ventre.
Além disso, Janete afirma que a filha nasceu com três voltas do cordão umbilical enrolado no pescoço e que estava com hematomas no corpo, principalmente nos lábios.
Insatisfeita com os motivos dados pelos médicos e com a causa da morte relatada na certidão de óbito, sua avó Julita Alves da Silva procurou a 90ª Delegacia Legal de Barra Mansa para registrar a ocorrência, pedindo que fosse realizada a necropsia de Camila.
Na certidão de óbito, de acordo com Julita, existe incoerências no tempo de gestação e causas da morte. Afirma que Janete estava com 38 semanas de gestação, enquanto no documento foi identificado como de 32 a 36. Segundo um especialista clínico, a outra contradição está quando afirmam que Camila havia nascido com hemorragia do feto e má-formação congênita, sendo que as ultra-sonografias realizadas anteriormente não constam nenhuma anomalia. “Esse tipo de problema nós podemos observar a partir do terceiro mês de gestação, o que não foi o caso, quando pude analisar as ultra-sonografias de Janete”, disse o médico que preferiu não se identificar, acrescentando ainda que de acordo com os dados clínicos e indícios apresentados no caso de Janete não deixaria de ter realizado uma cesariana.
Procurado pela equipe de redação de A VOZ DA CIDADE, o médico Mário Carneiro disse ter realizado os procedimentos corretos nesse caso. Em relação à pergunta feita sobre diabetes gestacional, que segundo ele é o caso da paciente, explicou que nesses casos é realizado um parto cesariano com 38 semanas e geralmente os nenéns nascidos nesses casos são prematuros e ficam na incubadora.
Segundo Janete, apesar de o laudo ainda não ter sido entregue pelo IML à 90ª Delegacia Legal o médico lhe deu o resultado. Perguntado sobre isso, Mário Carneiro afirmou que falou sobre o laudo porque um amigo que havia participado da necropsia lhe havia dado as informações. Procurado pela equipe de redação através de telefonema, o amigo que pediu para não ser identificado, que conversou com Mário a respeito do caso, mas não soube afirmar, se falou ou não do laudo, mas segundo informações obtidas junto ao IML não é permitida a divulgação de nenhum laudo, a não ser para a delegacia responsável, além de falta de ética.

Caso Vitória

Vitória, que nasceu no dia 23 de janeiro, no Hospital da Mulher, é mais um caso confuso. A existência de dois laudos divergentes de sua morte fez com que o caso fosse encaminhado para o Rio de Janeiro para ser avaliado. De acordo com informações da diretoria do Instituto Médico Legal do Rio, o laudo sobre a morte de Vitória ainda não foi finalizado. Isso porque o IML afirma que o hospital ainda não enviou as informações necessárias sobre o nascimento da criança, mesmo depois de diversos pedidos. É essencial a destinação de informações do hospital ao IML para serem comprovados todos os depoimentos e informações existentes.
O motivo para a determinação judicial de enviar o corpo do bebê para o Rio foi devido à distorção de fatos. O laudo do Hospital da Mulher revela que a criança nasceu morta, com a causa da morte sendo anoxia intra-uterina e sofrimento fetal crônico provocado por tabagismo. Já o do IML diz que a causa da morte foi traumatismo craniano-encefálico, provocado por ação contundente, ou seja, um aprisionamento em algo plano.
Como não poderia deixar de ser diferente, a família de Vitória está indignada com a situação. De acordo com a tia da criança Berenice Vitorino, 34 anos, a família está tentando obter o resultado do laudo oficial. Devido ao único problema para finalizar o laudo, Berenice acredita que pode haver uma coisa por trás disso tudo. “O Hospital da Mulher foi o local onde ocorreu o fato e ele deveria ter o máximo interesse em desvendar o mistério. Acaba ficando caracterizado que há um interesse em esconder alguma coisa”, diz. Berenice pede às autoridades competentes que tomem providências no caso. “Alguém tem que se sensibilizar com isso. Vamos até o fim para saber o resultado. Nem que para isso tenhamos que nos decepcionar”, afirma.
A família precisa do resultado do laudo para dar fim a um sofrimento que já dura mais de 60 dias. O corpo de Vitória foi enterrado depois de 25 dias de seu falecimento e a causa da morte está sub-judice. O caso do bebê está na Delegacia de Homicídio do Rio, para investigar o sumiço da placenta.

David Neles

Esse caso é o mais recente. David Neles foi sepultado quinta-feira. Ele nasceu no dia 27, às 18h15min e fora transferido para a Santa Casa, vindo a falecer às 23 horas. Sua avó materna, Maria Conceição dos Santos Ribeiro, 65 anos, que também está insatisfeita com as explicações médicas, procurou a 90ª Delegacia Legal para registrar o fato e pedir a realização da necropsia. O laudo estará pronto em 40 dias.
Segundo Maria Conceição, quando ela e o pai da criança foram comunicados, por volta das 11 horas do dia 28, do falecimento, foram imediatamente ao hospital e ao ver David perceberam que ele estava com o pescoço roxo e havia hematomas no buço e na bochecha direita.
Ela relata ainda que quando a criança voltou do IML (Instituto Médico Legal) os hematomas haviam diminuído e parecia algum tipo de ferimento. “Quando enterramos meu neto ele estava branquinho, russinho. Mas havia hematoma na bochecha e nos lábios”, lamenta a avó, acrescentando que não sabe o que aconteceu com David do momento em que nasceu até a hora em que veio a falecer. “Até agora não sabemos o que ocorreu. Ninguém nos avisou do nascimento de David. A mãe da criança estava lá, sozinha, pois havia sido internada dias antes”, diz.
Revoltada, ela ainda afirma que o parto já era para ter acontecido, pois sua nora estava com 42 semanas e ele estava marcado para o dia 20, mas só foi realizado no dia 27. “Ela foi internada, no dia 22, por estar com anemia, e mesmo assim demorou cinco dias para ganhar o neném. Nós só gostaríamos de saber o que aconteceu”, conclui.