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Português...                
                    ...na ponta da língua.

Professora Ana Malfacini

      Primeiras Palavras
     Quando me convidaram para fazer esta coluna, dois sentimentos me ocorreram: primeiramente, fiquei feliz com a oportunidade de dividir com alunos e demais leitores meus conhecimentos lingüísticos; depois, fiquei receosa, porque, afinal, não são todos os autores que têm a mesma visão sobre a Língua Portuguesa.
     O que vejo claramente é que algumas pessoas, preocupadas em marcarem-se socialmente como superiores, discriminam outras pela língua que usam. Chamam-nas de ignorantes e burras... Acusam os outros de assassinarem o português. A partir disso, cria-se uma grande confusão teórica entre língua e gramática, ou o que é pior: cria-se o conceito errôneo de que a gramática equivale ao “bom português”.
     Vale lembrar que língua é um tipo de código por meio do qual as pessoas se comunicam. É formado por palavras e leis combinatórias e pertence a todos os elementos de uma comunidade. Assim, como existem pessoas de lugares diferentes, com histórias, idades, sexos e gostos diferentes, a língua também se modifica, tornando-se elástica e permeável a situações diversas. São as variedades lingüísticas, isto é, variantes que uma língua pode apresentar conforme as condições sociais, regionais, culturais e históricas em que ela, a língua, é utilizada. Nesse sentido, a norma culta, a qual compreende a gramática, é apenas mais uma variante entre tantas existentes, não sendo, portanto, “melhor” que nenhuma outra.
     É claro que, por outro lado, não podemos esquecer que a língua padrão é a variante de maior prestígio na sociedade. É aquela seguida nos documentos oficiais e pedida nos concursos públicos. É a variante ensinada na escola, ou, pelo menos, é aquela que muitos professores tentam ensinar a seus alunos sem sucesso. Não acho que este seja o momento ou o lugar de discutir uma reforma no ensino da língua (a qual acho necessária, obviamente), mas não seria interessante pensarmos por que as pessoas, no geral, sentem-se falantes incapazes em sua própria língua? Ou por que as pessoas se consideram, via de regra, desassistidas frente à leitura de um documento oficial?
     Dito isso, esta coluna trata da língua (sim, da língua) em seu caráter geral. Não é meu objetivo falar só de gramática, embora reconheça que esta seja a grande dificuldade da maioria. Como diria o próprio professor Evanildo Bechara, eminente gramático, importante é “ser poliglota dentro da própria língua”. Afinal, de nada adianta falar um português extremamente culto se ninguém entende a mensagem, não é mesmo?

CHAPA QUENTE

     Durante muito tempo fiquei intrigada com a expressão acima. Certa vez, perguntei a meus alunos o que isso queria dizer e eles me responderam que dependia de cada situação.

     Exemplo:
     Lá no baile a chapa esquentou.
     (= a situação ficou difícil)

     Nossa! A menina é chapa quente!
     (= é atraente, cheia de dotes físicos)

     Adorei a explicação. Aliás, devolvi a lição com outra: a do poder de denotação e conotação de uma língua.
     Denotação é a representação da língua em seu sentido real e Conotação seria a língua em seu sentido figurado, subjetivo, metafórico.
     Assim, Chapa quente:
     = peça lisa e consistente com elevado grau de temperatura (denotação);
     = pessoa que apresenta sensualidade exacerbada (conotação);
     = situação difícil - calor como representação de agito ou confusão (conotação).

     Repare que, com o uso conotativo, são resgatados valores positivos ou negativos da palavra original. Vejamos:
     1. O gato é um animal arisco
     (denotação: gato em sentido real).

     2. João fez um gato na luz de casa
     (gato: ligação clandestina/conotação com valor negativo).

     3. Joaquim é um gatuno: furtou três casas no bairro
     (gatuno: ladrão/conotação com valor negativo).

     4. Rodrigo Santoro é um gato!!!
     (gato: homem bonito, atraente/conotação com valor positivo).

     Se notarmos bem, o animal gato tem todas as características atribuídas às pessoas acima: é atraente, bonito, charmoso, mas, ao mesmo tempo, traiçoeiro, arisco, pouco confiável...

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     E VC, TC DE ONDE?
     Pesquisa: eu gostaria de saber a sua opinião, caro(a) leitor(a). Você considera que a Internet contribui para a desvalorização do Português?

Mande seu e-mail para anamalfacini@hotmail.com
Conversaremos a respeito desse tema na próxima semana.
Abraços e bom fim de semana.