Português...
...na ponta da língua.
Professora Ana Malfacini
Qualquer pessoa hoje preocupada com o
mercado de trabalho busca aperfeiçoar
sua redação. Mas não é só isso.
Uma comunicação eficiente
pode ser válida em vários
contextos, sobretudo quando pensamos no
texto formalmente escrito. Pensando nisso,
resolvi listar alguns aspectos que podem
ajudar você, leitor(a), a planejar
melhor o seu texto. Espero que estas dicas
sejam válidas para seu cotidiano.
USO DO VOCABULÁRIO
Escreva com simplicidade e clareza. Não
empregue palavras complicadas ou supostamente
bonitas. Abandone a idéia de que
escrever bem seja escrever difícil.
Afinal, o vocabulário deve adequar-se
ao tipo de texto que pretendemos redigir.
No caso de situações formais
de comunicação, trabalhamos
com a linguagem padrão (aquela que
a norma culta exige), sobretudo quando
vamos tratar de algum problema de grande
interesse para leitores de bom nível
cultural. Nesse caso especificamente, dela
deverão estar afastados erros gramaticais,
ortográficos, termos chulos, gíria,
que não condizem com a linguagem
culta.
Observe as inadequações
neste exemplo:
Os manifestantes grevistas
refutaram o aumento salarial proposto pelo
governante.
Enquanto o deputado fazia na Câmara
os prolegômenos dos novos índices,
os trabalhadores faziam do lado de fora
o maior auê, para mostrar que o governo
não estava com nada.
É preciso ter muito cuidado com
as palavras, pois nem sempre elas se substituem
com precisão. Isso significa, na
prática, que escrever também é questão
de escolha e bom senso. Empregar refutar
por rejeitar, prolegômenos por exposição
não torna o texto melhor. Por outro
lado, não só palavras “bonitas” prejudicam
um texto, mas também a gíria
(auê) e expressões coloquiais
(não estava com nada). O que acontece
aqui é que o texto fica incoerente,
visto que os níveis de linguagem
usados passam do mais formal ao mais informal.
Como você deve ter percebido, fica
difícil acreditar no emissor da
mensagem – e até mesmo no
próprio conteúdo que ele
quer repassar.
Assim,
o fragmento poderia ser escrito da seguinte
forma:
Os grevistas rejeitaram o aumento
proposto
pelo governo. Enquanto o deputado fazia
na Câmara a exposição
dos novos índices, os trabalhadores
faziam do lado de fora uma grande manifestação.
Repare que o fragmento acima não
comprometeu o sentido da idéia a
ser transmitida. Ao contrário, a
concisão (seleção
objetiva de idéias) só contribuiu
para a melhor transmissão do conteúdo.
Afinal, como diria o poeta, “a palavra
de mais é a palavra de menos.”
OS ADJETIVOS
O emprego indiscriminado de adjetivos
pode prejudicar as melhores idéias.
Para que dizer um vendaval catastrófico
destruiu a cidade quando vendaval já traz
implícita a idéia de catástrofe?
Assim, evite usar adjetivos que já se
desgastaram com o uso como: calor escaldante,
saudosa memória, longa jornada,
doce lembrança, grata surpresa,
frio siberiano, inquietante silêncio, último
adeus, providências cabíveis,
vibrante torcida...
LUGARES-COMUNS E MODISMOS
Evite palavras, frases, expressões
ou construções vulgares.
A renovação da linguagem
deve ser uma preocupação
constante de quem escreve. Não há boa
idéia que sobreviva num texto cheio
de lugares-comuns, ou seja, cheio de expressões
exaustivamente repetidas pelo povo, geralmente
de caráter metafórico. Assim,
abandone:
a) frases do tipo:
agradar a gregos e troianos arrebentar
a boca do balão
botar pra quebrar
chover no molhado
deitar e rolar
dar com os burros n`água
deixar o barco correr solto
dizer cobras e lagartos
estar em petição de miséria
estar com a bola toda
estar na crista da onda
ficar literalmente arrasado
ir de vento em popa
passar em brancas nuvens
ser a tábua da salvação
segurar com unhas e dentes
ter um lugar ao sol
b) modismos, invenções,
como:
agudizar, alavancar
exitoso
imperdível
a nível de
curtir
galera
magnificar
apoiamento
chocante
gratificante
obstaculizar
Também evite chavões para
concluir um texto, tais como “diante
do exposto”, “conforme o mencionado
acima”, “pelo que foi dito
acima”, “após considerações
acima”. Lute sempre por uma linguagem
própria, distante do lugar-comum.
PLEONASMOS
Pleonasmos (viciosos) são repetições
desnecessárias para o texto dissertativo.
Alguns deles passam despercebidos quando
escrevemos. Veja os mais comuns e troque-os
pela forma exata.
Aproveite e repare
como os exemplos de pleonasmos abaixo
são
desnecessariamente usados:
A cada dia que passa = a cada dia
Acabamentos finais = acabamentos
Continua ainda = continua
Elo de ligação = elo
Encarar de frente = encarar destemidamente
Há 12 anos atrás = há 12
anos
Juntamente com = com
Monopólio exclusivo = monopólio
Espero que, com as dicas de hoje, os leitores
tenham esclarecido algumas de suas dúvidas
quanto ao melhor estilo a ser usado em
um texto formal escrito. Em caso de maiores
dúvidas, sugiro a leitura do livro
Roteiro de Redação, organizado
por Antonio Carlos Vianna (Ed. Scipione),
no qual me baseei para a coluna de hoje.
O livro é um achado para quem gostaria
de aprimorar suas técnicas de redação.
ENQUETE
E vc, tc de onde?
LÍNGUA PORTUGUESA E INTERNET:
UMA EXCLUSÃO?
Continua a polêmica sobre o assunto
que lancei na última semana: a Internet
atrapalha o bom desenvolvimento da língua?
Existe o internetês? A Internet atrapalha
no desenvolvimento escolar? Por problemas
técnicos, alguns e-mails não
chegaram a mim e, portanto, continuarei
recebendo as opiniões dos leitores
sobre o assunto, o qual será o tema
da nossa próxima coluna.
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