Estradas
brasileiras
O contingenciamento de R$ 2,4 bilhões
em 2005 dos investimentos do Governo Federal
destinados à infra-estrutura de
transportes acabou tendo efeito bastante
negativo nas rodovias, cuja manutenção
acabou não sendo feita da maneira
adequada, pela falta de recursos. Assim,
talvez sejam insuficientes as verbas de
R$ 440 milhões que acabam de ser
anunciadas no âmbito do Programa
Emergencial de Trafegabilidade e Segurança
nas Estradas, que visa a recuperar 26.441
quilômetros, em 24 Estados e Distrito
Federal.
Para efeito de comparação, é interessante
conhecer o tratamento que dois de nossos
maiores concorrentes na economia global
têm conferido à infra-estrutura
rodoviária. Na China, os investimentos
saltaram de US$ 13 bilhões, em 1997,
para US$ 38 bilhões em 2002. Sua
meta, até 2010, é construir
mais 35 mil quilômetros de estradas.
O governo da Índia investiu em rodovias
cerca de US$ 2 bilhões por ano até o
fim dos anos 90, ampliando o volume para
US$ 5 bilhões por exercício
no início deste século. Já se
fala no país que a expansão
da economia exigirá aumento para
US$ 20 bilhões/ano, suscitando a
abertura do setor ao capital privado.
A defasagem das verbas no Brasil pode ser
demonstrada em números. Considerando
pesquisa recente da Confederação
Nacional dos Transportes (CNT), o total
de vias federais a ser recuperado soma
58 mil quilômetros (32 mil em situação
ruim ou péssima e 26 mil em estado
regular). Ou seja, o dinheiro liberado
em caráter emergencial atende menos
da metade da demanda efetiva de melhoria
das pistas das rodovias brasileiras, principais
bases de nossa infra-estrutura de transportes,
levando-se em conta a precariedade dos
modos ferroviário e hidroviário
e o alto custo dos fretes aéreos.
Paralelamente à questão do
contingenciamento verificado em 2005 e
do volume de recursos previsto para as
obras de emergência neste início
do novo ano, há que se considerar
outra questão de grande importância:
o estado deplorável das rodovias
brasileiras, enfatizado pela mídia,
não decorre apenas da falta de investimentos
em manutenção e do excesso
de chuvas e das erosões. Uma das
causas do problema, curiosamente não
abordada e sempre esquecida, é relativa
aos materiais utilizados. Recapeamento
asfáltico e sinalização
somente são duradouros se realizados
com produtos de comprovada qualidade e
resistência.
Assim, é preciso que número
crescente de administradoras de rodovias,
geridas diretamente pelo setor público
ou em regime de concessão, passe
a fazer de maneira sistemática projetos
de longo prazo para a conservação
das estradas. O fato é que não
se pode mais conceber, a partir da tecnologia
alcançada na área, que se
utilizem recursos reconhecidamente de baixa
eficácia e curta durabilidade. Tal
prática, resultante em obras de
pequena duração e baixa qualidade,
agrava a escassez de investimentos e acaba
transformando a manutenção
das estradas num inesgotável ralo
do dinheiro público.
Áurea Rangel
Química, mestre em engenharia de
materiais e diretora executiva da Hot Line
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