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Sou um desempregado

     O desemprego não escolhe gênero, não escolhe nível ou escala social e pode atingir a todos que vivem e dependem do emprego e do trabalho para sobreviver. Apesar de ser uma realidade, ou melhor, uma dura realidade, o que vemos é uma sociedade cada vez mais hostil e preconceituosa diante do desempregado.
     “ Eu tenho uma doença contagiosa: sou um desempregado” é uma frase que expressa em poucas palavras o sofrimento, a marginalização, o sentimento de impotência e por que não dizer a culpa que muitos desempregados sentem por se encontrarem nessa situação. A analogia entre desemprego e doença contagiosa é muito comum nos relatos de profissionais desempregados. É um sentimento constantemente expresso, mas que deve ser analisado com muito cuidado.
     Não devemos olhar tal afirmação de maneira simplista, pois estaríamos dizendo: o desempregado é um doente. E isso não é verdade. Dizer que a expressão do que sentem os desempregados sobre sua condição podem ser compreendidas quando nomeiam esse sentimento como ‘uma doença contagiosa’, é diferente de dizer que desemprego é uma doença contagiosa.
     A reflexão que devemos fazer é: por que o desempregado sente-se um doente? E por que a sensação de ser algo contagioso? Sem dúvida, o desemprego provoca uma mudança na forma como os contatos sociais são estabelecidos. Antes empregado, o profissional tinha um papel reconhecido e valorizado, agora, com o desemprego, vê sua contribuição social sendo questionada.
     É no mundo do trabalho que somos nomeados, ganhamos um lugar de representação de sucesso, de reconhecimento social. Nossa sociedade tenta sustentar a qualquer custo a imagem ideal e são as organizações as maiores produtoras dessa imagem, além de disseminarem o discurso de excelência e perfeição.
     Não é incomum vermos os tipos ideais estampados em anúncios de revista, principalmente aquelas que são direcionadas para o público que trabalha na organização. Crescemos ouvindo que ‘o trabalho enobrece o homem’, que ‘só não trabalha quem não quer’, evidenciando uma valorização e uma cobrança social, que só reconhecerá quem trabalha e um tipo específico de trabalhador, já que não é qualquer trabalho que é valorizado e reconhecido socialmente.
     Nitidamente o emprego institui e define um papel social. Ter um emprego faz com que o sujeito sinta-se parte de um projeto coletivo, que quando perdido põe em cheque sua contribuição social e seu lugar na sociedade.
     Por isso o desempregado é colocado numa categoria de margem à sociedade. Ele é visto como um marginal, como pária. Julgado por sua situação, terá que lidar com a hostilidade e a rejeição.
     Quantas vezes você julgou alguém por estar desempregado? Quantas vezes você disse: “fulano de tal é um vagabundo, ele não trabalha!”, sem ao menos se perguntar o que deve tê-lo colocado nessa situação?
     O desempregado vive diariamente o preconceito por sua condição e tem que lidar com situações constrangedoras, principalmente àquelas que estão relacionadas com a busca de um novo trabalho. A maioria dos profissionais que está desempregado reclama do tratamento que recebe nas entrevistas de emprego, muitas vezes relatando histórias de humilhações, desrespeito e preconceito.
     Como lidar com situações em que a empresa determina que não contrata desempregados? Como lidar com as situações em que entrevistadores utilizam-se de sua condição de ‘poder’ para colocar o desempregado numa situação de pedinte? E principalmente como lidar com as rejeições dos colegas e amigos que não atendem mais suas ligações?
     O desemprego é um fantasma que ronda as relações. As pessoas ‘fogem’ do desempregado, é como se dissessem a ele: fique longe, você me faz lembrar a desgraça e a possibilidade que ocorra comigo o que ocorreu com você, fique longe porque isso pode ser contagioso e eu não sei lidar com esses sentimentos.
     Ninguém quer chegar perto de um desempregado, como se fosse uma doença contagiosa, em que qualquer contato pode ser perigoso. O desempregado representa ao outro a concretização de um medo.
     Assim, é sentido como uma doença, porque esse é o sentimento do que está à margem; é contagioso, porque ninguém quer estar por perto. Doente pela imagem que têm de si, contagioso porque dele todos fogem.
     Esse tipo de sentimento revela a imagem negativa que possui o desempregado em êvai fazer para mudar isso?

Laura Marques Castelhano
Graduada em psicologia pela PUC/SP, com aperfeiçoamento em psicologia clinica