Voltar

OPINIÃO
Interiorizando a ignorância

     Prezados leitores, é a segunda vez que escrevo para este jornal e desta será sobre uma reportagem que li na edição do dia 25 de abril, onde havia uma crítica em relação à educação da atriz Maria Zilda que esteve em curtíssima temporada no teatro Gacemns, na semana passada e, me parece, destratou algumas pessoas, como fãs e jornalistas.
     Bem, para início de conversa gostaria de contar um “causo” que aconteceu há exatos seis anos quando ainda fazia faculdade de teatro na UNI RIO e, junto ao meu grupo de teatro havíamos sido selecionados a participar do excelente Festival de Teatro de Blumenau-SC. Não tínhamos um níquel sequer para pagar passagem de ônibus, éramos 12 artistas e seria importantíssimo estar presente naquele evento. Soube que a atriz Fernanda Montenegro receberia uma homenagem na faculdade por sua participação no filme Central do Brasil e por sua indicação ao Oscar, então, sem saber se receberia um bofetão da senhora Fernanda, invadi a solenidade e pedi a ela que nos ajudasse de alguma forma. Ela pediu meu telefone e disse que veria o que poderia fazer. Bem, percebi ali que Blumenau naquele ano seria um sonho e não passaria disso. Eis que no dia seguinte, pela manhã, recebo um telefonema do secretário da atriz convocando-me para uma reunião com a secretária de Cultura (Helena Severo) naquela tarde para que eu tentasse as passagens e, ainda, conseguimos também outra reunião com o reitor da Uni Rio, de onde veio o dinheiro para pagar as passagens. Pergunta 1: Por que uma atriz reconhecida, talentosíssima, famosa, indicada ao Oscar, entre outras coisas, perderia seu precioso tempo com um ator desconhecido como eu? Simples a resposta: Porque ela já tem tudo que o mundo pôde lhe dar, humildade e sabedoria, por isso é o que é: Fernanda Montenegro! Quem não é, precisa de subterfúgios, como a antipatia ou arrogância para tentar aparecer.
     Agora pergunto: o que estavam fazendo algumas pessoas naquele teatro, naquela noite, assistindo àquela peça (ops!) teatral? Sinceramente, enquanto diretor de teatro, eu não sei. Aliás, nem sabia que essa senhora ainda estava na ativa. Aliás, pergunto: o que essa atriz já fez de importante para a nossa cultura? O que de relevante já assistimos dela e que realmente acrescentasse algo em nossas vidas? Para mim só tenho uma lembrança forte dela, a amizade com o inesquecível Cazuza. E só!
     Mas se fosse responder como público de cidades como Volta Redonda, Resende, entre outras, onde não se tem quase nada de diversão cultural, a não ser o Sesc em Barra Mansa, que vem nos brindando sempre com excelentes produções (aliás, deve-se salientar que lá – no Sesc - é um dos poucos lugares onde não se esbarra com a “burrocracia” e que realmente valoriza os artistas da região) ou cinemas de shoppings, que de cada dez filmes que passam 11 são enlatados americanos que nos fazem ficar cada vez mais bitolados e escravizados ou então bares e restaurantes com suas músicas ao vivo, responderia: “Ah... uma estrela global na minha região... vou sair de casa, pagar qualquer quantia para a bilheteria, para os flanelinhas que tomarão conta do meu carro ou para o trocador do ônibus ou, até, para o motorista da van que me levará de excursão com meus amigos, familiares, gente que nem conheço, etc... e me divertir, ué! Afinal globais por aqui é raro, né?”
     É , minha gente... a situação da nossa cultura é triste, muito triste. E do teatro, então, nem se fala.
     Há alguns dias estive em uma reunião de transferência de delegado do Sated (Sindicato dos Artistas e Técnicos de Espetáculos e Diversões do Estado do Rio de Janeiro) e fui informado por um dos POUCOS participantes, que a excelentíssima governadora Rosinha Garotinho havia nomeado o senhor Noca da Portela para novo secretário de Cultura do Estado e dentre uma das medidas do senhor citado (ainda não sei a fundo sobre o assunto e prometo me informar sobre), será algo chamado de “Interiorizando a cultura” que contratará alguns atores que estão ou estiveram no auge da carreira (provavelmente serão atores que estão na “geladeira”, ou seja, não estão na mídia) e enviá-los para darem aulas de teatro pelo interior do estado. Até aí tudo bem, afinal todos precisam viver, mas percebam, caros leitores, esse “interiorizando a cultura” significa o quê? Que, primeiro, no nosso interior do estado não temos cultura suficiente e que precisamos de “estrangeiros” para ditar uma moda? Segundo, e os professores de teatro que aqui existem e precisam da profissão para SOBREviver? O que será feito por eles? Ou melhor, por nós? Bem, se tivermos alunos como aqueles citados há pouco que vão às peças de estrelas e que têm a cabeça voltada para a televisão, fatalmente teremos que ficar em frente às igrejas com um pires na mão ou, então, quem sabe teremos que dividir espaço com os flanelinhas em frente aos teatros.
     Isso tudo tem uma ligação. Vejam: se - eu disse, vejam bem - SE o secretário de Cultura realmente acha que o interior não tem pessoas capacitadas (e tenho certeza que ele vai rever e refletir sobre o assunto) para dar aulas de teatro e que precisa nos exportar gente, por que não capacitar os próprios profissionais das regiões (já que ele acha que não há profissionais)? Porque ele nos enviará pessoas como a senhora Maria Zilda, que não fazem a mínima idéia de onde fica Volta Redonda, Barra Mansa, Resende, etc... e chegam por aqui com o rei na barriga, achando que estão nos fazendo um enorme favor, comem da nossa comida, recebem o nosso cachê, viram as costas e... tchau! E nós lá, batendo palmas de pé e lambendo as botas desses “artistas”. Enquanto isso as reuniões da nossa classe teatral ficam cada vez mais vazias. Acordem, pessoas, atores, atrizes, produtores, diretores da região... acordem!!!
     Ela fez grosseria a alguém? Bem feito para nós! Quem sabe daqui por diante olharemos mais para os grupos e artistas da região, valorizando-os ao máximo?

Symão Francisco