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PONTO DE VISTA
Negócio da China
Num artigo recente na “Carta Capital” o
deputado Delfim Netto exalta a grande
revolução no processo produtivo
mundial provocada por “400 milhões
de chineses educados, ganhando 100 dólares
por mês, diligentes e poupadores
(porque o Estado não cuida de
seu futuro)”. Implicitamente, este
seria, segundo o ex-ministro, também
o ideal da ordem social brasileira e
de toda a civilização mundial.
São elementos essenciais de uma
nova utopia no fantástico mundo
globalizado, desprovido de direitos sociais.
O que mais impressiona no texto de Delfim é a
valorização sutil dos chineses “poupadores” pela
razão prosaica de que “o
Estado não cuida de seu futuro”.
Eis aí, em todas as letras, o
que seria o motor de arranque do sistema
capitalista chinês que devemos
copiar.
A China é um grande mistério, às
vezes para os próprios chineses.
O sistema ditatorial chinês perdura
há milênios, transitando
do império para a república
sem tocar (e às vezes reforçando,
como na Revolução Cultural)
as bases autoritárias. A transformação
da China numa fábrica de bens
de consumo para o mundo, e principalmente
para os Estados Unidos, é um fenômeno único
de capitalismo de Estado que recorre
a um controle social quase absoluto.
Apontar a China, mesmo que de forma sub-reptícia,
como exemplo a ser seguido é ignorar
as especificidades chinesas. Os baixos
salários que viabilizam custos
competitivos são a contraface
dos gigantescos superávits comerciais
que implicam imensas transferências
de recursos reais para o exterior, em
detrimento do consumo interno.
Por outro lado, o controle absoluto da
economia e da sociedade permite ao governo
chinês, pelo menos até o
momento, conciliar as demandas sociais
com as respostas econômicas.
Nesse ponto, e apenas nesse ponto, a
economia chinesa parece um pouco com
a economia norte-americana, e difere
fundamentalmente da brasileira: são
economias que não fazem concessão
ao neoliberalismo em matéria de
política de pleno emprego. Os
gigantescos déficits públicos
norte-americanos não permitem
que o desemprego fique fora do controle.
A lição dos anos 30, com
a Grande Depressão, nunca foi
esquecida nos Estados Unidos, a despeito
do neoliberalismo vendido para fora.
Já os dirigentes chineses não
seriam loucos em tolerar alto desemprego
urbano apenas para agradar investidores
estrangeiros. O Estado na China não
cuida do futuro das pessoas, como diz
Delfim. Cuida do presente, e bem melhor
do que o nosso Estado.
Marcelo
Crivella
Senador da República pelo Estado
do Rio de Janeiro
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