Português...
...na ponta da língua.
Professora Ana Malfacini
Como
havia prometido aos leitores,
resolvi trazer à tona
a questão do internetês,
tão discutida nos
dias de hoje.
Recentemente, um programa da TVE, voltado para a discussão de assuntos
cotidianos, propôs a seus espectadores a seguinte questão: as licenças
de linguagem na Internet empobrecem a língua portuguesa?
Resultado: • Sim: 72% • Não: 28%
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Bem, hoje a questão é o Internetês:
as licenças de linguagem na Internet
empobrecem a língua portuguesa?
Na pesquisa que realizamos foi identificado
um grande número de respostas destinado
ao “sim” (72%) que demonstra
que internautas acham que as abreviaturas
usadas nas conversas dos bate-papos na
web, como a comunicação instantânea
pelo Messenger ou Orkut, empobrecem o idioma.
Mas não é o que pensam alguns
especialistas, como se demonstrará aqui.
O DEBATE
O debate ocorrido no programa televisivo
foi provocado pela seguinte fala do apresentador:
A tremenda
penetração da
Internet entre os jovens está transformando
a linguagem abreviada dos chats e blogs
numa espécie de código que
nada tem a ver com a gramática,
ortografia, e às vezes subverte
a própria semântica. Em um
país que lê tão pouco,
escreve menos ainda, e quase não
se entende, é bom pensar em voltar
para a escola.
Professor Sérgio Nogueira, que apresenta
o Programa de Palavra na STV Sesc/Senac,
encara com certa naturalidade o problema.
Alega que a língua é viva,
evolui, se transforma, isso é natural.
E completa, mandando um recado para os
professores de Português:
Eu acho que é muito importante,
hoje, o professor de língua portuguesa,
primeiro, não se assustar com o
problema, procurar conhecer esse código.
O jornalista Rodolfo Lucena vê também
de forma positiva essa febre de os jovens
teclarem, mesmo que seja tudo abreviado:
Eu acho
extremamente positivo o uso que os jovens
fazem da Internet e dessa linguagem
tão peculiar porque, em primeiro
lugar, eu vejo adolescentes escrevendo,
talvez como nunca, nos últimos 20
anos, e em segundo lugar, para que você saiba
usar uma linguagem reduzida precisa conhecer
a linguagem, o básico.
Deonísio da Silva, que escreve coluna
na revista Caras sobre língua portuguesa,
e diretor da Faculdade de Comunicação
Social da Universidade Estácio de
Sá, destoou dos demais participantes
do programa:
Uma pequena
parcela da sociedade brasileira tem acesso à Internet e essa pequena
parcela assemelha-se a uma horda de zulus
eletrônicos, que pularam o livro
e foram direto para o teclado, este eu
acho que é o grande prejuízo.
Está mais do que na hora de nós
fazermos uma defesa da norma culta da língua
portuguesa. Eu considero a língua
portuguesa assassinada a tecladas.
Já segundo o sociolingüista
Marcos Bagno, a Internet é uma escrita
virtual, uma fala digitalizada, uma mescla
das duas modalidades da língua.
O conteúdo só interessa a
quem escreve e a quem lê. Assim como é inútil
tentar corrigir a língua falada,
também me parece inútil tentar
corrigir a língua escrita na web,
porque ela é fugaz, efêmera
e se dissipa no ar, porque sequer chega
a ser impressa.
ALGUNS EXEMPLOS
Atualmente, existem os “emoticons”,
caretinhas e personagens que são
usados para expressar as emoções
de quem está teclando, para que
o receptor tenha um quadro completo da
conversa.
Antes dos “emoticons”, as emoções
humanas eram expressas por vários
caracteres disponíveis no teclado.
Os símbolos mais comuns eram:
:-) - “estou contente” ou apenas “sorrir”
:-( - “estou triste”
:-D - “rindo”
;-) - “piscando o olho”
Havia também o “lol”,
que significava rir, proveio do acrônimo
inglês para “Laugh Out Loud” (ou
seja, Rir bem alto). Se você olhar
bem, “lol” parece com uma pessoa
com os braços erguidos, comemorando.
No Brasil, usa-se “muhahuaheuahua” ou “aUAheUHEAUehaeuhaeuAH”, ”eheheh”, “KKKKKKKKKKkk” e “rsss” que
também significam rir.
O
XIS DA QUESTÃO
A polêmica é criada porque
cidadãos comuns e professores ainda
consideram a escrita transcrição
da linguagem falada. Com essa concepção,
acham que cada letra, cada sílaba
precisa ser lida, soletrada, subvocalizada,
nada pode ser abreviado. Não se
deram conta de que a leitura deve ser meramente
visual.
Alguns exemplos de como a leitura é visual:
1) Quando se passa de carro por um outdoor
se faz uma leitura visual dele, sem ler
palavra por palavra.
2) Leia o texto abaixo:
De
aorcdo com uma pqsieusa de uma uinrvesriddae
ignlsea, não ipomtra em qaul odrem
as lrteas de uma plravaa etãso,
a úncia csioa iprotmatne é que
a piremria e útmlia lrteas etejasm
no lgaur crteo. O rseto pdoe ser uma ttaol
bçguana que vcoê pdoe anida
ler sem pobrlmea. Itso é poqrue
nós não lmeos cdaa lrtea
isladoa, mas a plravaa cmoo um tdoo. Vdaerde!
USO
DO INTERNETÊS NA ESCOLA
Não se deve permitir o uso do internetês
nos trabalhos escolares, em provas, muito
menos nas redações, pois
a escola deve ensinar ao aluno o padrão
culto de linguagem.
Esse impedimento deve ser amplamente discutido
com os alunos, mostrando as razões,
porque cada linguagem deve ser usada em
seu lugar social, em determinadas situações.
Há mesmo é uma reação
negativa diante do novo, como aconteceu
com o surgimento do fogão a gás,
da garrafa térmica, do forno de
microondas. Grande parte da população
não sabe sequer manipular um controle
remoto de tevê, composta pelos chamados “analfabetos
eletrônicos”.
Enfim, as pessoas têm o direito de
não aderir ao novo, é uma
opção de vida. Muitas não
sabem manipular as novas tecnologias, outras,
porque, infelizmente, não têm
poder aquisitivo. E polemizar não
quebra ossos, apenas esclarece ainda mais
o tema.
(Este artigo teve como fonte o trabalho
de Helio Consolaro, exposto no site www.portrasdasletras.
com.br e o programa Observatório
de Imprensa, em que ocorreu o debate acima,
disponível em http://www.tvebrasil.com.br/observatorio)
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