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MÁFIA
DAS AMBULÂNCIAS
‘Seja o que Deus quiser’
Paulo Baltazar sai
da liderança do
PSB e diz estar disposto a até quebrar
sigilo fiscal e telefônico VOLTA
REDONDA - “Estou tranqüilo
do ponto de vista da minha inocência”.
Essa foi uma das muitas frases do deputado
federal Paulo Baltazar (PSB) em coletiva à imprensa
no final da tarde de ontem sobre a Máfia
das Ambulâncias, em seu gabinete,
no Aterrado. Embora não tenha estado
em nenhum banco dos réus para fazer
essa afirmação, de uns dias
para cá o deputado federal tem sido
questionado sobre denúncias sérias
que podem prejudicar até mesmo sua
reeleição.
O nome de Baltazar está na lista
dos 16 que serão investigados pela
comissão de sindicância criada
pela Câmara dos Deputados para apurar
o envolvimento de parlamentares na Máfia
das Ambulâncias, originada da chamada
Operação Sanguessuga - que
investigou a compra de ambulâncias
e ônibus superfaturados com recursos
do Orçamento da União -,
deflagrada na semana passada pela Polícia
Federal. Ao todo, foram arquivados pedidos
de investigação contra 36
deputados. Outros dez aguardarão
o aprofundamento das investigações
da PF.
Segundo o deputado, do ponto de vista afetivo-emocional
ele não está satisfeito e
no político-eleitoral sabe que isso
faz parte, “eventualmente, de quem
está na vida pública”.
Ele acredita no ditado popular “Quem
não deve não teme” e
está disposto até mesmo a
abrir mão de seu sigilo fiscal e
telefônico. “Defendi que os
deputados federais envolvidos no esquema
do Mensalão abrissem mão
do sigilo e continuo afirmando isso”,
destaca.
Para não interferir nas investigações,
Baltazar se afastou temporariamente e por
vontade própria do cargo de líder
do PSB na câmara. “Sempre defendi
que as investigações fossem
feitas e até que elas se concluam
vou estar afastado. Fiz isso com bastante
tranqüilidade”, conta.
Baltazar continua afirmando que não
faz sentido seu nome ter aparecido no escândalo.
Ele explica que compete aos parlamentares
colocar emendas no Orçamento e a
inserção delas na área
de saúde, especificamente para aquisição
de ambulâncias sempre foi feita por
ele a pedido de prefeituras e entidades. “Os
deputado só fazem isso. O recurso é liberado
pelo Ministério da Saúde,
mas é preciso que as prefeituras
ou entidades apresentem um projeto ao ministério,
inclusive com os valores. É natural
que existam preços diferenciados,
pelos diversos tipos de ambulâncias.
Por isso não creio em preços
superfaturados”, afirma, acrescentando
que o responsável por ditar o preço
e promover as licitações é o
Poder Executivo ou entidades e o Tribunal
de Contas da União (TCU) é que
deve auditar para ver se tem alguma irregularidade. “Então,
se fosse assim o TCU também deveria
estar envolvido”, diz.
CRÍTICAS DISCRETAS
O deputado ainda aproveitou a oportunidade
da coletiva para denunciar que um deputado
destinou o valor de R$ 320 mil para a compra
de uma ambulância e não entende
o porquê de não ser investigado. “Não
vou dizer quem é o deputado, o partido,
por questão de ética. Vi
esse valor no Sistema de Controle da câmara. É verdade
que trabalho mais com a saúde. Mas
não fui o deputado que mais colocou
emendas de saúde nem sou o que colocou
os maiores valores”, denuncia.
O deputado acredita que os nomes de parlamentares
estejam envolvidos pela Peça Orçamentária
ser pública. Ele afirma que qualquer
pessoa pode saber para onde estão
indo verbas para ambulâncias. Além
disso, cita que a câmara é uma
cidade aberta. “Passa gente vendendo
até camarão. Lobista lá tem
aos montes. As portas dos gabinetes são
sempre para a rua. Qualquer um entra e
usa o telefone se diz precisar. Lá é a
casa do povo”, garante. Por isso,
argumenta que qualquer empresa com espírito
empreendedor pode verificar no Orçamento
para onde vão as verbas de ambulâncias
e procurar as cidades.
Ele conta como as prefeituras ou entidades
procedem. De acordo com Baltazar, elas
o procuram, pedem para colocar uma emenda
no orçamento e quando isso acontece
os gabinetes, por intermédio dos
assessores, cobram das administrações
públicas o envio ao ministério
com o projeto e os documentos necessários.
Essa era a função de Paulo
Roberto Correia, assessor do deputado,
que foi citado por terceiros nas escutas
autorizadas da Polícia Federal.
O assessor está afastado do cargo
e Baltazar afirma que se for necessário
será exonerado.
SOLUÇÃO
Para acabar com o uso de nomes de deputados
no esquema ou em outros que possam surgir,
Baltazar sugere que dentro do Orçamento
não sejam mais apresentadas emendas
individuais e que fora do Congresso o
pregão eletrônico das licitações
mantivesse um controle maior. “Muitos
dos deputados gostam de ganhar votos
mostrando à população
as emendas que conseguiram; eu também
gosto disso. Mas acredito que essa não
deva ser a principal função
legislativa”, destaca.
Com relação à possível
instalação de uma Comissão
Parlamentar de Inquérito (CPI),
tentativa dos deputados Raul Jungmann
(PPS-PE) e Fernando Gabeira (PV-RJ),
que começaram a recolher assinaturas
para a instalação, Baltazar
acredita que isso não será possível,
já que não existiria tempo
hábil. Ainda existem três
CPIs no Congresso que não chegaram
ao fim. Mais do que a instalação
da comissão, o deputado acredita
que isso tudo possa fazer parte de um
esquema montado pela oposição. “Um
deputado disse que há claramente
uma tentativa do Executivo dada a crise,
a proximidade da OAB liberar o impeachment,
as declarações do Silvinho
(Sílvio Pereira, ex-secretário-geral
do PT)”, diz Baltazar.
O deputado ainda garante que isso não
atrapalhará sua candidatura para
a reeleição. “Não
vou desistir da reeleição.
Os obstáculos nos fazem mais fortes.
A minha vida sempre foi vencer obstáculos.
Seja o que Deus quiser. Acredito que
nada acontece por acaso”, assegura. COMO FUNCIONAVA
De acordo com informações
da Polícia Federal, para fazer o
esquema funcionar parlamentares propunham
emendas ao Orçamento que destinavam
recursos para a compra de ambulância
até 110% acima do preço.
A empresa Planam, peça central da
fraude, vendeu mais de mil ambulâncias
com o golpe. Estima-se que mais de R$ 50
milhões tenham sido desviados dos
cofres públicos. A Comissão
de Sindicância da Câmara dos
Deputados terá 30 dias para decidir
quais deputados citados no esquema da fraude
das ambulâncias serão obrigados
a se explicar no Conselho de Ética
da Casa. Quarta-feira, em depoimento à PF
e ao Ministério Público,
a ex-assessora do Ministério da
Saúde Maria da Penha Lino, uma das
integrantes da quadrilha, disse que 170
parlamentares estavam envolvidos no esquema.
Abaixo,
a lista dos deputados que
serão investigados
e os que ficarão no
aguardo de mais informações
da PF.
Deputados que serão investigados imediatamente pela Câmara:
1. Almir
Moura (PFL-RJ)
2. Fernando Gonçalves (PTB-RJ)
3. Isaías Silvestre (PSB-MG)
4. João Batista (PP-SP)
5. João Correia (PMDB-AC)
6. Marcos Abramo (PP-SP)
7. Maurício Rabelo (PL-TO)
8. Neuton Lima (PTB-SP)
9. Paulo Baltazar (PSB-RJ)
10. Professor Irapuan Teixeira (PP-SP)
11. Reinaldo Gripp (PL-RJ)
12. Ricarte de Freitas (PTB-MT)
13. Vieira Reis (PRB-RJ)
14. Wellington Fagundes (PL-MT)
15. Zelinda Novaes (PFL-BA)
16. Reginaldo Germano (PP-BA) (Esse deputado não estava incluído
no documento da Polícia Federal, mas o presidente da Câmara, Aldo
Rebelo, resolveu incluí-lo em razão das notícias veiculadas
na imprensa que citam seu nome.
*Deputados que ainda poderão ser investigados, dependendo do repasse
de informações da PF:
1. Alceste Almeida (PTB-RR)
2. João Magalhães (PMDB-MG)
3. Nilton Capixaba (PTB-RO)
4. Dr. Benedito Dias (PP-AP)
5. Edna Macedo (PTB-SP)
6. Eduardo Seabra (PTB-AP)
7. Elaine Costa (PTB-RJ)
8. João Mendes (PSB-RJ)
9. Pastor Pedro Ribeiro (PMDB-CE)
*Nas investigações, aparecem os nomes de Benedito e Heleno. Porém,
há mais de um deputado com esses nomes na Câmara. A Corregedoria
tentará descobrir qual é o deputado envolvido para ser investigado.
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