Abaixo a hipocrisia!

     Quando eu era adolescente, e os filmes de faroeste ainda alcançavam muito sucesso entre os jovens, muitas vezes embora sem coragem para demonstrar abertamente - eu torcia pelo bandido contra o mocinho. E, hoje, ao relembrar, pergunto-me a razão de tal canhestra preferência. Até, porque, não enveredei pela carreira do crime... Sou um trabalhador comprometido com a ética, embora viva em um país onde, lamentavelmente, os criminosos ainda levam alguma vantagem sobre os que são honestos.
     E não tenho dúvida em afirmar que, como na telenovela da TV Globo que acabou, “Belíssima”, os “mocinhos”, supostos heróis, eram todos quase sempre muito débeis, inexpressivos e chatos. Enquanto os “bandidos”, como, por exemplo, a “Bia Falcão”, eram personagens interessantes, charmosos, de muita inteligência e determinação. E, assim, também à luz da triste e cruel realidade brasileira, deram certo no final da trama. E o público de todo o País, segundo comprovam as pesquisas de opinião, também vibrou pela sorte dos maus em mais esse folhetim televisivo, como quando éramos meninos e torcíamos pelos “bandidos” das películas de cowboys norte-americanas e italianas. É nessa hora, como está acontecendo em relação à telenovela que acaba de estrear na TV Globo, “Páginas da Vida”, que eu me pergunto se não somos hipócritas ao tapar os olhos com a peneira, negando verdades incontestáveis apenas em nome de um moral e bons costumes que, lá no fundo, não praticamos no cotidiano? Cujo bom exemplo não tem vindo de cima, dos governantes, e, na prática, nem mesmo a sociedade tem dado às famílias brasileiras. A novela tem sido criticada por mostrar cenas de sexo, preconceito, falsidade, mentira, infidelidade, violência.

Ricardo Viveiros
Jornalista, escritor e empresário na área da Comunicação Social