Novos tempos na política (final)

     O especialista em avaliação de candidatos faz mais algumas anotações e outras perguntas:
     - O senhor já disse que tem uma mulher de borracha, por acaso tem alguma amante?
     - Claro que não. Sou fiel a Isolda, minha boneca inflável.
     - Se tiver chance, o senhor entraria no esquema do mensalão?
     O candidato a candidato lança um olhar irônico para o especialista, que entende ter feito uma pergunta boba.
     - Bem, afinal o que o senhor venha a fazer depois de eleito não é de minha conta. Acaso o senhor tem filhos, parentes, amigos? Se tiver, acho ótimo. Eles são necessários como testas-de-ferro para esconder seu enriquecimento.
     - Não tenho filhos. Isolda ligou as trompas e adotou algumas borrachinhas escolares. Quanto à riqueza, eu já disse que sou pobre de marré de si.
     - Pobre agora, mas logo fica podre de rico, quando for eleito.
     - É o que pretendo.
     - Pois muito bem. Aqui está o manual com as instruções do partido. Leia com atenção e decore bem o item das desculpas esfarrapadas para o caso de ser indiciado numa CPI. Mas, lembre-se, sempre proponha a você mesmo a quebra de seu sigilo bancário.
     - Ué, por quê?
     - Porque lhe dá a chance de exibir para o país a sua suposta honestidade.
     - Tudo bem, posso fazer isso, afinal posso depositar meu dinheiro em contas de amigos e parentes.
     - Como vejo que o senhor tem chances de se eleger, não faça a tolice de pedir à secretária para assinar cheques fantasmas; não use a loteria para lavar dinheiro sujo nem exiba ostensivamente a sua riqueza. Se possível, seja tão franciscano quanto a senadora Heloisa Helena. Compre imóveis caindo aos pedaços, fotografe e guarde as fotos para exibi-las em caso de necessidade de demonstrar pobreza. Quando quiser gastar a grana da roubalheira use disfarce para não ser reconhecido.
     - Como assim?
     - Como deputado viva como se fosse pobre. Como cidadão anônimo, usando peruca, barba postiça e outros disfarces, goze a vida, entendeu?
     - Sim.
     - Então, boa sorte.
     - Obrigado.