Cheio de ódio para dar

     Bom dia, leitor
     Mau dia, puxador de automóvel.
     Cara, no velho oeste, ladrão de cavalo era enforcado. Tinha um julgamento sumário já com o laço da corda no pescoço. Hoje, na era da Internet, bandido bom é bandido morto. Ou seja, prevalece o mesmo desejo de justiça pelas próprias mãos.
     Você, seu crápula, tem péssimo gosto. É um imbecil! No meio de vários carros de designer arrojado, novos, cheirando a tinta, deu de roubar logo o meu Chevetinho cansado de guerra, anacrônico diante de tantos carros modernos, fora de linha de fabricação.
     Por que, seu idiota? Queria o kit gás? Queria as rodas incrementadas de aro 15? Imbecil, correr o risco de roubar um carro velho só para ficar com o kit gás e vendê-lo por qualquer tostão? Podia, já que estava delinqüindo, roubar um carro melhor. Aí dava para depenar, vender as peças do motor, da carroceria, tudo o mais, inclusive o cobiçado kit gás. Mas não, seu desgraçado, preferiu o meu Chevetinho. Ah, seu maldito! Quando você chegar ao inferno, coisa que não vai demorar, porque a vida de bandido é muito curta, espero que o capeta velho mande que um milhão de ratazanas roam seu fígado. Que seus olhos sejam servidos boiando numa sopa. Que seus órgãos sexuais sejam esticados até virarem cadarços de sapato. Que sua boca vomite bilhões de baratas e de seus ouvidos nasçam minhocas, lesmas, carrapatos e percevejos. Como vê, desejo tudo de bom para você, seu ladrão imundo.
     Infelizmente, cara, não posso amar você, como Deus desejaria que eu amasse. É difícil para mim querer bem a alguém da sub-raça humana como você. Sei que a solução para o mundo está no amor. Sei que se amássemos uns aos outros, o mundo não teria guerras, exércitos, polícia, prisão, juízes, advogados. Enfim, bastava cumprir um mandamento de Deus para resolvermos todas as desgraças do mundo. Mas, como? Como amar um desgraçado como você?
     Eu quero mesmo é vê-lo debaixo de sete palmos de terra e ainda urinar na sua cova.
     Adeus, seu desgraçado! Que a bala que o vai matar seja abençoada.
     E você, cruel leitor, se ver jogado por aí o Chevette placa LHU 6377-SG, todo depenado, triste e abandonado, é o meu finado carro. Ponha flores sobre ele e deseje-lhe um bom descanso.