Batendo pino

     Mais uma vez me pego numa daquelas discussões sem fim sobre tangíveis e intangíveis. Sobre a nossa incapacidade de dar valor ao que não conseguimos medir. Sobre a absoluta ignorância da sociedade acerca daqueles aspectos ligados ao intelecto, à alma. Na discussão mais uma vez perguntei para que vale um médico, um advogado, um engenheiro que é incapaz de emocionar-se com uma música, uma peça de teatro, um poema... Um profissional de primeira, mas ser humano incompleto.
     Nestes dias de celebridades vazias e culto ao dinheiro, quem é o tonto que vai perder tempo com uma pintura, hein? Quem é o babaca que se emociona ouvindo uma orquestra sinfônica? Quem é a bicha que fica com olhos marejados ao ler um poema? Quem é o trouxa que perde tempo lendo livros? Quem é o irresponsável que ainda acredita na “verdadeira experiência da arte”? Acho que só os poetas, não é?
     - Pô, meu, tô ocupado demais trabalhando pra perder tempo com essas bobagens...
     Pois eu ainda me emociono. Ainda me apaixono. Ainda me comovo com uma manifestação de arte, de talento, de sensibilidade... E não sou poeta! Ou será que sou poeta? Nós somos poetas? Quem são os poetas?
     Vou lançar uma campanha... Troque seus políticos por um poeta. Troque seus executivos por um poeta. Troque seus marqueteiros por um poeta.
     Talvez o Brasil consiga finalmente parar de bater pino.

Luciano Pires
Jornalista, escritor, conferencista e cartunista.
www.lucianopires.com.br