O ex-ditador

     Bom dia, leitor
     Aí está um conto-relâmpago que descobri entre meus antigos escritos, do tempo da máquina datilográfica.
     Foi um ditador sanguinário. Agora, exilado provisoriamente num país cuja população o acha indesejável, sente o peso da solidão. Não vê amigos a sua volta. Não tem à disposição belas mulheres. Tem apenas as roupas do corpo e a mala. A mala... A imprensa fixou os olhos nela. Recebeu cartõezinhos de gerente de bancos, telefones sedutores. Estão pensando o quê? Que a mala contém dólares? ouro? jóias? Antes tivesse.
     Desolado, ele caminha pela sala soturna, ampla, com belas pinturas nas paredes, porém falta calor humano. Súbito, pára diante da janela, porém mantendo uma prudente distância, pois há sempre uma arma apontada para o peito dos tiranos. A tristeza o invade. Derrama fel em sua alma. É dia de seu aniversário, mas quem há de se lembrar da data?
     Gritos. Ouve gritos. Apura os ouvidos. Vem do exterior. Além dos portões da fortaleza que o abriga há uma multidão furiosa. A esquerda. Sempre a esquerda!
     Os rumores aumentam. Gela. Na certa há faixas, cartazes, ativistas de megafone insuflando a multidão. Certamente vão fazer seu enterro simbólico. Claro que vão fazer. Não conhece um só ativista de esquerda que dispense enterro simbólico. Enterro simbólico dá ibope. Garante câmaras de TV.
     Vão invadir a casa? A possibilidade enche-lhe a alma de medo, de pânico. Passa dos 70 anos, contudo não se acha preparado para morrer. Sonha até com a possível volta por cima, reassumindo o poder. Deixa-se triturar pela dúvida. Será que vão invadir a casa? Pensa na antiga guarda palaciana, nos seguranças, nas Forças Armadas. Era dono de um país. Ditava as regras. Tinha poder de vida e de morte sobre milhares de pessoas.
     Sente um gosto amargo na boca. Um revolucionário levantou o povo contra ele. Seus ministros foram abatidos como gado no matadouro. Seu exército imbatível caiu de quatro diante dos revolucionários. Seus generais fugiram para outros países.
     A gritaria aumenta. Através da cortina, ele vê os dois seguranças no quintal. Parecem despreocupados. Estúpidos. Como podem manter a serenidade numa situação como esta?
     Gotas de suor escorrem pelo rosto do velho ditador. Lembra Mussolini morto e pendurado pelos pés na via pública. Não! Não vai perder a calma. Não vai se deixar dominar pelo pânico. De repente, sente vontade de sair, de enfrentar a turba de peito aberto. Diria, então, com toda altivez:
     - Eis-me aqui, senhores. Solicito ser morto com um tiro no coração, sem tortura.
O clamor da multidão aumenta. Ele não vacila. Ainda é um homem. Ainda é um general. Súbito, toma a decisão extrema: vai ao encontro dos manifestantes. Para que negar. Chegou ao fim da linha. Não deve se iludir. Por onde quer que vá, sempre haverá uma multidão querendo decepar-lhe a cabeça.
     Então, abre a porta. Caminha ereto, em direção aos dois seguranças. Tem de manter o máximo de dignidade diante dos subalternos. Assim, quem sabe, a história se lembrará dele como um bravo, como um homem incompreendido em sua época.
     Os seguranças, no entanto, obstruem-lhe a passagem.
     - Alto lá, general. Temos ordens de não permitir sua saída!
     O ex-ditador sente o rubor incendiar-lhe o rosto. Que atrevimento! Dois réles seguranças dando-lhe ordens. Ah! os bons tempos. Por tamanho atrevimento mandava decapitá-los.
     - Saiam da frente ou não respondo por mim - berra o ex-ditador.
     Um dos seguranças recua, o outro mantém o corpanzil no caminho do velho ex-ditador.
     - O senhor pretende ir aonde, general?
     - Vou lá! O ex-ditador aponta o grande portão com o alto muro que encobre a paisagem.
     Os seguranças olham um para a cara do outro. O velho general fica sem entender o porquê da cara deles.
     - Então, faça o favor de me deixar passar.
     - Não é conveniente, general.
     - Quem é o senhor para me dizer o que é ou não é conveniente? Saiba que o senhor está falando com o general Augusto Arriba Noruega Calabrez y Ostensório.
     - Sei quem é o senhor, general. Talvez o senhor não esteja informado, mas existe uma porção de crianças lá fora. Cismaram de brincar de repórter de TV para conseguir uma entrevista com o senhor.