No divã (2)

     - Não quero votar no Serra – reagi, dando uma de homem.- O Serra vai continuar a política neoliberal de FHC.
     - Não se atreva a me desobedecer, Firmínio - rosnou Apolônia com uma expressão homicida no rosto e com olhos arregalados.
     Graças a Deus que o voto é secreto e pude lulalar tranqüilamente no primeiro e no segundo turnos. Lembro que nos tempos do Collera, ela exigiu que eu desse meu voto para elle. Por castigo do destino, Apolônia ficou com pavor de Collor. A grana que ela tinha na poupança foi confiscada. Ah, doutor, quase morri de rir.
     Mas, deixa-me contar para o senhor. Sabe, apanhei muito de Apolônia no começo do casamento, na tal fase de adaptação dos cônjuges. Mas nunca gritei. Nunca dei prazer aos vizinhos de ouvir meus berros, meus lamentos. Apanhava como macho, sem gritar. Certa vez, depois de juntar meus pedaços que estavam espalhados pelo chão, pensei em procurar a Deah (Delegacia Especial de Atendimento aos Homens).
     - Se atreva a me dedurar que tu vai ver com quantos paus se faz um defunto - advertiu Apolônia.
     Hoje, doutor, felizmente quase não apanho. Mal Apolônia abre a boca já estou obedecendo. No entanto, para alcançar essa estabilidade emocional, esse porto seguro, abri mão de meu orgulho, do que restou de minha virilidade. Para o senhor ter uma idéia, doutor, certa vez o pesquisador do Ibope apareceu em minha casa. Fiquei deslumbrado, pois sempre pensei que o pesquisador do Ibope não existia, que era apenas ficção, afinal nunca ninguém viu nenhum deles. Respondi a todas as questões sobre a programação das emissoras de TV, então, ele perguntou qual era a minha profissão. Eu estava para abrir a boca cheio de orgulho e dizer que era engenheiro civil, mas o olhar reprovador de Apolônia me fez cair na real.
     - Sou prendas domésticas - balbuciei.
     E não deixava de ser verdade. Lavo, passo, cozinho, limpo cocô de cachorro e vou ao supermercado e à feira fazer compras.