A
verdade que não foi mostrada
O documentário Falcão – meninos
do tráfico, exibido recentemente
na televisão, teve grande repercussão,
com manifestações em vários
segmentos da sociedade. A filmagem tentou
mostrar os bastidores das comunidades dominadas
pelo tráfico, focando o envolvimento
de menores. Mas há controvérsias
e é preciso ficar atento para todo
o contexto da situação.
Ao longo de anos, com a vivência
que adquiri, posso afirmar que nem tudo
que foi apresentado pelo documentário é,
funciona ou acontece da maneira que foi
mostrada. As entranhas de uma favela são
bem piores e os menores que trabalham para
o tráfico são perigosos,
agressivos e cruéis. Longe de serem
criaturas fragilizadas como foram apresentadas.
Sei que uma boa parcela da população
poderá não concordar, mas
podem ter a certeza de que é a mais
pura verdade.
Surpreendeu-me a tranqüilidade mostrada
no documentário. Isso nos leva a
crer que para as coisas saírem daquele
jeito foi preciso algum entendimento prévio,
o que é preocupante, pois se os
autores e diretores do filme fizeram algum
tipo de acordo, dando alguma contrapartida
para o pessoal do local, a obra torna-se
uma grande contradição.
Quem levanta a bandeira da verdade em busca
de oportunidade para os excluídos,
não pode ceder a quaisquer negociatas.
Aliás, foi divulgado que, durante
a gravação do documentário,
a produção viu pessoas seqüestradas
em cativeiro, fato omitido para a polícia.
Qual teria sido o preço do silêncio?
E as vidas humanas no cativeiro, não
têm valor? Quem busca ressocializar
meninos envolvidos com o narcotráfico,
não se importaria com as três
vidas em apuros?
As impressões que ficaram foi a
que os diretores do filme priorizaram a
oportunidade de um furo de reportagem em
detrimento às vidas humanas que
apareceram no caminho. E isso é grave.
Marcos Espínola
Advogado e membro da Associação
Internacional de Criminologia |