Olimpíadas urbanas

     Bom dia, leitor
     Está certo, fomos eliminados da Copa do Mundo pelos franceses, mas continuamos participando das olimpíadas urbanas, que são abertas para atletas de qualquer idade, sem distinção de cor, sexo, religião ou ideologia política.
     O competidor já está participando desde o momento em que é apenas um espermatozóide. Nesta etapa, contudo, os juízes consideram que está apenas no aquecimento. Quando o competidor de baixa renda sobrevive à primeira dentição, após passar brilhantemente pelas provas do sarampo, da catapora, caxumba e bronquite, é considerado apto às demais provas. Na fase infantil, ele já concorre de igual para igual com os adultos na modalidade bala perdida. Nas demais modalidades, como sobrevivência a assaltos, seqüestros, estupros, atropelamentos, desastres aéreos, erros médicos, infecção hospitalar e falta de atendimento médico, a pior prova é a de programação da TV. Quem consegue assistir a televisão já é medalha de ouro por antecipação.
     No entanto, sobreviver a assalto é a modalidade mais disputada. Cabe ao atleta ser assaltado de modo civilizado, sem dar chance ao assaltante de matá-lo. Se for morto, claro, está eliminado da competição. As maiores estrelas da modalidade sobrevivência a assaltos são os cariocas, porque são espertos. O carioca já sai de casa levando separado no bolso a grana do assaltante da vez.
     Outra competição vibrante, cheia de lances emocionais, é a falta de atendimento médico nos hospitais da rede pública. Os grandes favoritos à medalha de ouro são as famílias de baixa renda. Contudo, os favelados cariocas estão reagindo e prometem mudar esse quadro.
     Competição democrática é a do erro médico. Não discrimina o atleta pela situação econômica e trata todos de igual para igual. O recorde olímpico até hoje ninguém tirou do ex-presidente Tancredo Neves, um grande incentivador dessa modalidade.
     Na modalidade chacina, a Baixada Fluminense continua abiscoitando todas as medalhas de ouro. São Paulo está imbatível com a onda de violência com queima de ônibus e mortes de policiais e carcereiros.No entanto, os EUA reagem. Ameaçam vencer os jogos com seus jovens atletas que invadem os colégios atirando em todo mundo. Pois é, cruel leitor, nós, os brasileiros, estamos indo muito bem nas olimpíadas urbanas. No entanto, ainda não conseguimos derrotar os países africanos na modalidade fome.
     Mas estamos chegando lá, né não?