‘DEVOÇÃO
PARTIDÁRIA’
Durante aproximadamente cinco décadas – entre
os anos 50 e as eleições
municipais de 2000 – ele sempre
participou dos pleitos eleitorais de
Resende, na maioria das vezes como dirigente
partidário.
Benedito Ivo Martins de Barros, mais
conhecido como Curinga, faleceu semana
passada, após sentir-se mal em
sua casa, no bairro Lavapés, região
central do município. Chegou a
ser levado para o Hospital de Emergência,
mas não resistiu. Deixou um detalhe
pouco comum no cenário político
nacional dos dias de hoje: o de nunca
ter trocado de partido. Morreu filiado
ao PTB, no qual ingressou ainda jovem.
A ligação de Curinga com
a sigla de Getúlio Vargas começou
em 1948. Menor, ele assistia escondido
atrás da porta aos primeiros encontros
voltados à fundação
desta agremiação em Resende – as
reuniões aconteciam num casarão
do Centro Histórico e eram coordenadas
pelo médico Afonso Balieiro. Completada
a maioridade, assinou a ficha partidária.
A partir disso, foram anos e anos de
pura “devoção” à agremiação
trabalhista.
Curinga testemunhou os grandes momentos
do PTB no Município. Foi assim,
por exemplo, na eleição
de Oswaldo Rodrigues como prefeito em
1962. Durante a Revolução
Militar, iniciada dois anos depois, manifestou,
por diversas vezes, seu descontentamento
com o bipartidarismo imposto pelo novo
regime. As duas únicas alternativas
passaram a ser a ARENA e o MDB.
Com a reabertura política, no
pleito eleitoral de 1982 participou diretamente
do processo que culminou na escolha dos
três candidatos a prefeito de Resende
pelo PTB, agora renascido sob o comando
de Ivete Vargas a nível nacional.
Os três candidatos do partido à prefeitura
naquele ano foram Alceu Paiva, Aluízio
Balieiro Diniz e Weber Marques. Dez candidatos,
de quatro partidos diferentes, disputaram
aquela eleição. Venceu
Noel de Oliveira, do PMDB. No mesmo pleito,
Curinga assistiu o retorno do PTB à Câmara
Municipal com a vitória nas urnas
dos vereadores Vicente Diogo e Luís
Carlos Besouchet.
A minha amizade com Curinga começou
ainda nos meus tempos de criança.
Companheiro de trabalho do meu tio materno
Sebastião na Rede Ferroviária
Federal, ele se tornou amigo da nossa
família. Nos últimos anos,
eu tinha o bate-papo com Curinga como
uma espécie de “compromisso
sagrado” nas manhãs de domingo.
Quase sempre sentados na proteção
de cimento ao redor de uma árvore
que “batizamos” como coringueira,
em frente à Bomboniéri
Vitória, na Praça Oliveira
Botelho, conversávamos horas e
horas, sobre os mais variados assuntos – nestas
conversas, ele foi me contando toda sua
trajetória de militância
no PTB.
Curinga, aliás, era um dos personagens
anônimos desta mesma praça,
um dos pontos efervescentes da vida política
e cultural de Resende em décadas
passadas. Na juventude, integrou um grupo
musical que realizava shows na Rádio
Agulhas Negras, até então
localizada neste mesmo logradouro. O
jovem Benedito fazia de tudo um pouco
no conjunto, atuando como uma espécie
de Curinga. Vem daí o apelido
pelo qual ficou conhecido para sempre
em Resende e no diretório estadual
do partido.
Flávio
Collistet é jornalista |