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Um negro... presidente

Dizer que um negro se elegeu presidente dos Estados Unidos, embora isso seja verdade, pode configurar uma atitude preconceituosa. Ninguém pode ignorar que quem se elegeu presidente é um advogado, que já era senador, detentor de uma significativa folha de trabalho à comunidade, que foi capaz de conquistar os votos do eleitorado e, entre outras coisas, é um afro-descendente.

A cor da pele não foi a determinante da vitória, mas uma série de variáveis o fizeram preferido dos norte-americanos e, inclusive, motivaram milhares eleitores a votar com muita alegria, contagiando de esperança aquele país onde o voto não é obrigatório. Fez-se a espiral positiva.

Barack Obama, com propostas concretas, conseguiu empolgar e mover positivamente negros, brancos, latinos, jovens e idosos, e com isso fez-se presidente. Hoje tem nas mãos a grande tarefa de enfrentar a crise econômica e – aí sim - concretizar o sonho de Martin Luther King, de construir uma sociedade onde os indivíduos não sejam julgados pela cor da pele, mas pelo que fazem ou representam no contexto social. Sem dúvida, é uma quebra de paradigma numa sociedade que até bem pouco tempo vivia o racismo explícito e ainda hoje conserva bolsões de intolerância injustificável.
Supervalorizar a negritude de Obama é o mesmo que atribuir a eleição do presidente Lula a sua condição de retirante nordestino (não ao seu carisma, inteligência  e liderança político-sindical construída com sangue, suor e lágrimas) e dizer que uma mulher, ao assumir um cargo importante, antes ocupado exclusivamente por homens, o fez por sua condição feminina, não por sua competência. São avaliações errôneas que ocorrem em demérito aos vencedores e ao gênero ou categoria a que pertencem.

Já vai longe o tempo em que alguém foi considerado “de segunda classe” por não ter pele branca, ser do sexo feminino, ser homossexual ou pertencer a este ou àquele segmento filosófico ou religioso. O mundo de hoje não admite mais generalizações e nem intolerâncias. Embora certos indivíduos ainda não tenham percebido, o que vale hoje é o fato concreto e não o subjetivo. Se um cidadão é útil à coletividade e ao meio onde vive, pouco importa sua origem, sua pele, seu sexo, sua orientação sexual ou sua posição ideológica. Mais vale o seu comprometimento com a sociedade e a causa que resolveu abraçar.

Obama, sendo negro, tem toda condição de reafirmar a igualdade entre os indivíduos. Colocado como o homem mais poderoso do mundo, terá como comprovar àqueles que ainda permanecem na ignorância do preconceito e da divisão racial que o ser humano é único e indivisível. Que cor, sexo, religião e outras diversidades são nada mais que detalhes e - potencialmente - todos somos iguais, com os mesmos anseios, direitos e obrigações. E que tudo o que apontar contra essa igualdade é mero preconceito e merece a mais completa reprovação da sociedade.

Que o presidente negro seja o grande instrumento de redenção para todos aqueles que ainda sofrem qualquer tipo de discriminação. Que, depois do seu período, o mundo ame mais e seja mais solidário, humano e justo...

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