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Felipe - cinema@avozdacidade.com

Osso duro de roer

Tropa de Elite, o filme mais esperado do ano, finalmente faz sua estréia oficial, no Rio e em São Paulo, depois de toda polêmica causada pelo vazamento de uma cópia inacabada que já vendeu mais de um milhão de DVDs por camelôs de qualquer cidade brasileira.

O filme, de José Padilha (diretor de Ônibus 174), não merece toda essa atenção. Trata-se de uma obra que não acrescenta nada ao espectador, nem como cinema nem pela idéia de mostrar o difícil cotidiano de membros do Bope, o esquadrão de elite da Polícia Militar do Rio de Janeiro. Na verdade, o filme acaba por transformar torturadores e assassinos em heróis. O capitão Nascimento é uma espécie de Jack Bauer tupiniquim, e muita gente dorme melhor com tipos assim cuidando das coisas. Mas que coisas?

O capitão Nascimento e sua tropa acham que “entrar pela favela e deixar corpos pelo chão” pode realmente diminuir a criminalidade, sem levar em conta que essa é a única forma em que o Estado entra nas favelas. Trocar os Homens de Preto por médicos de branco e por professores não é uma opção. A missão da polícia é proteger os cidadãos, inclusive os de comunidade. O Bope retratado no filme só defende quem vive no asfalto, os moradores da favela apenas estão no meio do caminho. Ter uma polícia investigativa e preventiva apenas deixaria Nascimento e seus sociopatas sem emprego. Meter o pé na porta dos apartamentos de luxo de quem ganha dinheiro alto com o tráfico ou denunciar policiais corruptos não faz parte da missão. Tudo que se vê é apenas o apelo fácil da violência como resposta para qualquer problema.    

A história se passa em 1997 e retrata o dia-a-dia do grupo de policiais e de um capitão do Bope que quer deixar a corporação e tenta encontrar um substituto para seu posto. Paralelamente, dois amigos de infância se tornam policiais e se destacam pela honestidade, inteligência e honra ao realizar suas funções, se indignando com a corrupção existente no batalhão em que atuam. O capitão Nascimento, do Bope, pretende sair da tropa, está à procura de um substituto e pensa em indicar um deles, para isso não hesita em manipular os seus conflitos e dúvidas, assim como incentivar sua raiva direcionando tudo para cima da “bandidagem”.

O ponto forte do filme é o elenco encabeçado por Wagner Moura, que consegue transformar o fascista Nascimento num ser humano até admirável. Caio Junqueira e André Ramiro vivem, respectivamente, Neto e Matias, os dois jovens oficiais honestos, porém prontos para ultrapassar qualquer limite em nome do cumprimento da missão. Também se destacam no elenco Milhem Contaz e Marcelo Escorel, perfeitos como oficiais corruptos da PM convencional, e Fernanda Machado fazendo uma patricinha bem intencionada, mas alienada e que não se preocupa em ver os problemas daqueles que diz ajudar.

A direção de Padilha é pesada, mas consegue imprimir ao filme um tom de urgência e claustrofobia bem adequado às angústias do protagonista. A trilha sonora usa músicas já conhecidas do público do asfalto e mantém distância do som que toca nas favelas onde se passa boa parte do filme, funks e proibidões talvez criassem simpatia pelo pessoal que não é do asfalto. Afinal, o objetivo do filme não é mostrar vida inteligente, criativa e quem sabe até honesta nas favelas.


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Colaboração de Felipe Basto, estudante do 2º período de História no UBM e cinéfilo

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