Pipas no céu
O ano mal começou e já temos boas e más notícias para o cinema brasileiro. Enquanto o Ano em que meus pais saíram de férias não ficou entre os cinco finalistas do Oscar de melhor filme estrangeiro, Tropa de Elite foi incluído no festival de Berlim. Será que o Capitão Nascimento teria mais condições de trazer um careca dourado para o Brasil? E por aqui, Meu nome não é Johnny faz bela carreira. Já passou dos 900 mil espectadores e é o segundo filme mais visto do ano até agora. O primeiro é Eu sou a Lenda, com Will Smith.
Esta semana, o destaque das telas é O Caçador de Pipas, drama que, como o best-seller em que é baseado, mostra três décadas de conflitos no Afeganistão e gira em torno da amizade de Amir, um garoto rico (interpretado por Zekiria Ebrahimi, que hoje tem 11 anos), e Hassan, filho de um serviçal pobre (vivido por Ahmad Khan Mahmoodzada, hoje com 13 anos). Seu maior passatempo é soltar pipas e participar de campeonatos. Os garotos vivem uma infância de aventuras em Cabul até que Amir e seu pai fogem da invasão soviética, em 1979. Eles vão para a América, onde Amir cresce, se adapta e acaba por esquecer seu país natal. Até ser obrigado a voltar para um Afeganistão dominado pelo talibã e destruído por sucessivas guerras. Está na hora de ajustar contas com o passado.
O filme chega envolto em polêmica pela cena em que Hassan é violentado numa viela por um fortão da área. As conseqüências desse ato geram toda a tônica da produção. A cena é forte, crua e por causa dela os protagonistas tiveram que fugir do Afeganistão, temendo uma reação de muçulmanos ortodoxos.
O livro, escrito pelo afegão Khaled Hosseini, traz uma imagem do Afeganistão, sem apelar para o exótico ou para o julgamento cultural. O filme, dirigido pelo alemão Marc Forster, não tem essa qualidade e usa o Afeganistão para exaltar os valores ocidentais. O lugar é atrasado, feio, sujo e parece não ter jeito. A única maneira de você melhorar é fugindo para o paraíso americano, onde não há preconceito nem miséria. |