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Educação e instrução

O que leva um jovem de classe média a desempenhar o papel de espancador de faxineiras?  A resposta é: a falta de educação.

Educação, claro, no sentido amplo. Penso na educação como aquilo que se ensina nos primórdios da existência: o significado de se dizer "bom dia", a importância de se acionar a descarga da privada em um banheiro publico, a noção de que há algo de profundo e importante em se usar a palavra "por favor", a noção de que se deve deixar as pessoas saírem primeiro antes de avançar para dentro do elevador.

Ao longo dos anos, o papel dos membros das famílias mudou. Os avanços da tecnologia, principalmente no século XX, ajudaram a libertar a mulher de duas tarefas básicas: lavar e cozinhar. Quer uma roupa lavada? Compre uma máquina de lavar. Não conseguiu preparar uma boa refeição? Agora existe o microondas. Resultado? Tivemos uma alteração radical no papel da mulher no mercado de trabalho e, como uma das conseqüências disso, o seu tempo ficou mais valioso: um minuto a mais com o bebê significa um minuto a menos no mundo dos negócios (e da possível realização profissional). Em outras palavras, educar um filho ficou mais caro. E a situação não mudará nos próximos anos: pelo contrário, todos querem aproveitar os benefícios da boa vida pela qual luta(ra)m.

Quando um bem que você deseja fica mais caro, a tendência é tentar se livrar dele ou comprá-lo a um preço menor. Em resposta a essas mudanças, empresários alteram as características de seus produtos.

Isso é o que se pode observar nos modernos jardins de infância: há muito mais atividades (e mais diversificadas) neles hoje do que nos bons e velhos anos 60.

Em meio a tudo isso, um antigo rito de passagem teve seu significado bastante alterado: o de "passar no vestibular". Antigamente, isso era quase um atestado parcial de maturidade dos filhos. Algo como: "Meu filho, você agora é responsável, ensinamos a você quase tudo o que é básico. Daqui para a frente, especialize-se em um campo do conhecimento e use nossos ensinamentos para uma saudável vida em sociedade". Nos termos deste artigo, o que os pais diziam pode ser traduzido como: "Nós te educamos, agora vá ser instruído pelos mestres da academia".

Isso mudou. Como já foi dito, os pais terceirizaram boa parte da educação dos filhos.  Querem que a escola - local de instrução, muito mais do que educação - inverta suas prioridades. O professor deve ensinar desde o significado do "bom dia" até os mais abstratos conceitos de Física. Não é só instruir - tarefa original do professor - mas também educar.

O que fazer? Minha sugestão é bem simples: as faculdades deveriam criar um serviço de acompanhamento psicológico e cobrar uma taxa adicional dos pais que queiram - como dito acima - terceirizar a educação. A mensalidade que se paga atualmente cobre a instrução, o ensino científico, mas não a educação.

Mais ainda: os pais devem estar cientes que o serviço não lhes garante que o filho não se transformará em um mau elemento, um criminoso, um espancador de faxineiras. Se nem os pais podem garantir isso, que se poderia esperar de professores cuja especialidade é transmitir o conhecimento, não ensinar boas maneiras?

Além disso, o governo não deveria se intrometer na formação desse pacote de serviços. Pelo contrário, deveria deixar que os pais escolhessem aquele que melhor lhes conviesse. Se alguns estão dispostos a arcar com o risco de educar melhor seus filhos, não precisam pagar por mais esse serviço da faculdade. Já os que preferem uma jornada de trabalho mais extensa, mas não desejam que seus filhos percam muito da educação são prováveis clientes do pacote ampliado "educação + instrução".

Moralmente falando, creio, é uma solução até mais correta do que o que observamos hoje: de um lado pais que fingem ser papel das universidades educar e instruir e, do outro, as universidades, cuja função é instruir, fingindo que educam. Ao adotar a sugestão acima, pais e administradores de instituições de ensino ajudariam a diminuir um pouco dessa hipocrisia através da definição do direito de propriedade sobre a educação do filho e de sua alocação para aqueles que mais a valorizam.

Claudio Shikida é rconomista, professor e colaborador do Instituto Millenium


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