O preço da liberdade é a eterna vigilância (mas um pouco de educação ajuda)
A "divertida" luta dos liberais para serem entendidos tem várias
facetas. Outro dia, em um jornal de grande circulação, havia um
caderno sobre o debate entre Paul Krugman e Anna Schwartz acerca das
contribuições de Milton Friedman para a Ciência Econômica. Talvez seja
de conhecimento comum - não creio - entre os leitores do dito jornal
que liberals e conservative não podem, de forma alguma, serem
traduzidos, respectivamente, por liberais e conservadores. Qualquer um
que já tenha ido além dos manuais de Ciência Política, Filosofia ou
Economia escritos exclusivamente na língua de Camões sabe que liberals
são os nossos social-democratas (para não dizer socialistas) e
conservatives são nossos liberais (pejorativa e incorretamente
chamados de "neoliberais"), libertários ou anarco-capitalistas, no
caso mais extremo. Aliás, o desconhecimento na terra do Pau-Brasil é
tamanho que duvido que haja um único leitor que saiba quem são os
principais autores anarco-capitalistas. Faltou, pois, cuidado por
parte do revisor técnico da tradução (se é que existe esta figura no
jornal).
Mas não há apenas esta dificuldade, digamos, linguística. Há as
distorções trazidas pelos autoritários de plantão: os ditos "movimentos sociais", normalmente sob monopólio do pensamento autoritário (totalitário?) de esquerda não conseguem passar um dia sem
reclamar que seriam vítimas de uma "política neoliberal do Consenso de
Washington no mundo globalizado" enquanto a administração que -
abertamente (ou não) - apóiam, a do Sr. da Silva, promove uma política
fiscal expansionista com ocasionais tentativas de intervenção em
aspectos os mais diversos da vida privada (determinação do número de
canais nacionais na TV paga, criação de órgãos fiscalizadores para a
imprensa, etc). Claro, da esquerda autoritária não se espera outra
coisa que não o berreiro feroz contra seus concorrentes no mercado
eleitoral.
Do outro lado, em tons verde-oliva, autoritários da direita vêem o
Brasil como vítima do imperialismo norte-americano e juram por Deus (e
pela Tradição, Família e Propriedade?) que a Amazônia é o fetiche-mor
dos militares dos EUA (quase sempre raivosamente chamados de"estadunidenses"). O temor de uma invasão é próprio de militares e
pode ser saudável se existe uma dose razoável de realismo. Caso
contrário, fatos sérios - como a sofrível infra-estrutura das forças
armadas - transformam-se em elementos para fantasias xenófobas com
temperos de autoritarismo, aliás, em voga na América do Sul dos sonhos
bolivarianos.
Finalmente, existe a famosa "quinta coluna": empresários genuinamente
não-liberais. Há dois tipos. Os declaradamente não-liberais - apesar
da contradição em nível de discurso - e os caçadores de favores
governamentais (rent-seekers). Estes últimos são os mais perigosos:
declaram-se liberais e buscam usar o poder econômico e suas relações
com o governo (ou com ex-burocratas influentes) para impor seus
interesses às expensas do restante da população.
Muitos dos problemas relativos à quinta coluna se iniciam na educação
universitária, com uma visão distorcida sobre como o mercado funciona.
Não existem, para alguns estudantes, "regras". Existe, sim, barganha
sobre coisas que não se devem barganhar (segundo as regras). É o mesmo
problema do político corrupto que deseja alterar as regras para
enriquecer às custas dos outros. A busca pela própria felicidade é
feita sem o respeito básico pelas restrições que todos nós
enfrentamos, ou seja, o negócio é "ser feliz a qualquer custo", mesmo
que este "qualquer custo" implique em atos ilegais como "colas",
plágios, etc.
Para os liberais, o único jeito de vencer estas barreiras consiste em
aplicar mecanismos de mercado sobre seus inimigos o que, em termos
intelectuais, consiste no embate racional de idéias. Pelo que se vê no
Brasil, há muito trabalho pela frente...
|