A máscara da inveja
"A inveja é a paixão que vê com maligno desgosto a superioridade dos
que realmente têm direito a toda a superioridade que possuem." (Adam
Smith)
O escritor argentino Gonzalo Otálora causou polêmica ao defender a
cobrança de impostos das pessoas consideradas mais belas para
compensar o "sofrimento" daqueles que supostamente foram menos
favorecidos pela natureza. O escritor disse que sua iniciativa tem o
objetivo de provocar um debate sobre o culto à beleza. Com um
megafone, ele foi à frente da Casa Rosada reclamar os "direitos" dos
feios. Esperava contar com o apoio do então presidente Kirchner, a
quem classifica como "pouco atraente". Otálora alega que os deboches
sofridos na infância prejudicaram sua auto-estima e atrapalharam na
conquista de melhores empregos. Em sua opinião, um dos assuntos que
deveriam ser debatidos é a representação de "todos os tipos de
constituição física" nos desfiles de moda. A inveja é alçada ao
patamar de justiça, e a mediocridade é enaltecida enquanto o superior é condenado por suas virtudes, e não vícios.
Ainda que as demandas do argentino feioso pareçam absurdas – e são,
elas no fundo representam apenas os ideais igualitários levados ao
extremo de sua coerência. No fundo, um igualitário deveria pregar a
igualdade plena, abolindo qualquer tipo de diferença entre os
indivíduos. Aquele igualitário que prega uma distribuição de riqueza
igual entre os indivíduos precisa aplaudir o apelo do argentino sob
pena de ser acusado de materialista, caso não o faça. Ora, ficaria
evidente demais que ele só pensa em dinheiro! Por que todos deveriam
ter uma renda igual, mas rostos diferentes, podendo se destacar pela
beleza num desfile? Onde estaria a igualdade? Na verdade, os
igualitários, ou socialistas, pregam a igualdade das contas bancárias,
assumindo involuntariamente que focam apenas nos bens materiais.
Normalmente, são os primeiros a acusar os capitalistas de
materialistas, mas só querem saber de dinheiro. Talvez porque demandar
igualdade em outros campos tornaria o verdadeiro motivador de suas
idéias aparente demais. E este motivador é conhecido: a inveja.
Na década de 1960, os igualitários ganharam força, levando George
Orwell a escrever 1984, uma distopia que explorava a inveja na
política. O Partido Trabalhista inglês, de esquerda, demandava uma
sociedade de iguais "absolutos". Uma novela satírica iria explorar
esta "paixão anti-social", como dizia Mill, no campo do cotidiano. O
escritor inglês L. P. Hartley era o autor, e a obra chamava-se Facial
Justice, comentada no excelente livro de Helmut Schoeck sobre o tema,
intitulado Envy: a Theory of Social Behaviour. Na sátira, Hartley
chega à conclusão lógica através das tendências do século passado, e
expressada por Schoeck no seu livro, sobre a estranha tentativa de
legitimar o invejoso e sua inveja, de forma que qualquer um capaz de
despertar inveja é tratado como anti-social ou criminoso. Em vez de o
invejoso ter vergonha de sua inveja, é o invejado que deve desculpas
por ser melhor. Há uma total inversão dos valores, explicada apenas
por uma completa aniquilação do indivíduo em nome da igualdade
coletivista. Os seres humanos passam a ser tratados como insetos
gregários, e o indivíduo que ousa se destacar passa a ser tratado como
um inimigo da "sociedade". O rico, ainda que tenha criado sua riqueza
de forma honesta através de trocas voluntárias, é execrado pelos
invejosos. O sucesso individual é um pecado!
A heroína da novela de Hartley chama-se Jael, uma mulher que, desde o
começo, não se conforma com a visão igualitária, recusando-se a
aceitar porque pessoas mais bonitas ou inteligentes deveriam se anular
como indivíduos por causa da inveja alheia. A novela se passa no
futuro, depois de uma Terceira Guerra Mundial, e as pessoas eram
divididas de acordo com o grau de aparência. A meta era obter uma
igualdade facial, pois a igualdade material não era suficiente para
acabar com a inveja: alguns sempre terão algo que os outros não têm e
invejam.* Havia um Ministério da Igualdade Facial, e a extirpação dos
rostos tipo Alfa, os mais belos, não bastava, pois os rostos tipo Beta
ainda estavam em patamar superior aos do tipo Gama. Enquanto todos não
tivessem a mesma aparência, não haveria justiça. Ninguém poderia ser
desprivilegiado facialmente. Hartley combate a utopia dos
igualitários, mostrando que a igualdade financeira jamais iria abolir
a inveja na sociedade. Durante sua vida, ele demonstrou aversão a
todas as formas de coerção estatal.
No livro Teoria da Personalidade, o psiquiatra G. J. Ballone diz:"Todas as tendências ideológicas que enfatizam a igualdade dos seres
humanos, num total descaso para com as diferenças funcionais, ecoam
aos ouvidos despreparados com eloqüente beleza retórica, romântica, ética e moral. Transportando tais ideais do papel para a prática,
sucumbem diante de incontáveis evidências em contrário: não resistem à
constatação das flagrantes e involuntárias diferenças entre os
indivíduos, bem como não explicam a indomável característica humana
que é a perene vocação das pessoas em querer destacar-se dos demais".
O sonho com um mundo de iguais, como se homens fossem cupins, denota
um escancarado complexo de inferioridade. As diferenças agridem este
indivíduo, pois ele é incapaz de aceitá-las, provavelmente por
detestar ver no espelho aquilo que o diferencia dos demais. A inveja
toma conta de seus sentimentos, e a destruição dessas diferenças passa
a ser sua meta. Como ele não suporta as conquistas alheias, demanda mediocridade geral. Os coletivistas odeiam admitir que
indivíduos possam fazer a diferença. A riqueza precisa ser explicada
como um fatalismo coletivista, os méritos individuais precisam ser
derrubados, as escolhas individuais cedem lugar ao determinismo, tudo
para anular o indivíduo enquanto indivíduo, substituindo-o pelo
coletivo.
Em resumo, o que está por trás do igualitarismo é apenas a inveja
mesquinha. O socialismo não passa da idealização da inveja. O foco
desses igualitários costuma ser somente o material por dois aspectos: é inviável pregar de fato a igualdade facial, por exemplo; e fazê-lo
iria rasgar de vez a máscara da hipocrisia que cobre seus apelos
invejosos do mais "nobre" altruísmo. Mas a lamentável verdade é que
igualitários não suportam as diferenças. E como os indivíduos,
felizmente, são diferentes, parece evidente que existirão vários graus
distintos de beleza, inteligência, altura, velocidade, talento musical
e sim, também renda. Para Bill Gates ficar bilionário, ele não teve
que tirar nada de ninguém. Foram os consumidores que, voluntariamente,
julgaram os produtos de sua empresa valiosos, pois criavam valor para
eles. Logo, não há motivo algum para que o governo meta suas garras na
fortuna de Gates de forma compulsória, em nome da "igualdade". Ele tem
o direito de ser bem mais rico que os outros. Aqueles que não aceitam
isso, desejando um imposto extorsivo sobre sua fortuna, podem tentar
mascarar seu motivador com a desculpa que quiserem, mas isso não
mudará o fato de que, por trás dessa máscara, reside somente a
abominável inveja daqueles que não são capazes de admirar o sucesso
alheio.
* No filme Círculo de Fogo, que conta a história de um soldado russo
que precisa enfrentar um sniper enviado pelos nazistas especialmente
para matá-lo, isso fica bem evidente quando um companheiro político,
interpretado por Joseph Fiennes, acaba traindo Vasily Zaitsev, o
soldado russo interpretado por Jude Law. Sua constatação, quando
realiza sua traição, expressa a essência da mensagem. Ele descobre que
sempre haverá algo no vizinho que desejamos, mas não possuimos,
independente da igualdade material. No caso do filme, trata-se do amor
de uma mulher, disputada por ambos. A inveja é uma característica da
pessoa, não fruto das desigualdades em si, que sempre existirão.
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