O ambientalista cético ataca de novo
Sensatez, medo do novo, prudência, mente fechada, pé no chão. Todos os nomes já foram dados para dar conotação negativa ou positiva ao ceticismo. E Bjørn Lomborg, dinamarquês que se tornou conhecido por seu livro O Ambientalista Cético, não é meramente um questionador, um chato desconfiado. Sobre o aquecimento global, Lomborg acha que este realmente está em curso e que é provocado pelo homem. Noves fora, as interrogações começam: diante da aceitação desse fato, em que lugar isso fica numa lista de prioridades? Isso é mais urgente que a Aids, a fome, a distribuição de vacinas, a extinção imediata de plantas, de animais? Qual o real impacto disso na Terra? As respostas podem variar, só que uma coisa é certa: quem não sabe o que vai comer amanhã, quem não consegue água potável agora, não está pensando como ficará o planeta daqui a 300 anos.
A entrada do dinamarquês nos estudos ecológicos e recursos naturais começou, de fato, com ceticismo, ao ler uma entrevista na revista Wired, em que o economista Julian Simon dizia que, contrariamente ao senso comum, o meio ambiente estava ficando melhor, e não pior. Lomborg pensou logo que se tratava de mais uma propaganda direitista americana. Recrutou seus melhores alunos, formou um grupo de trabalho para provar que Simon estava errado. Mas não estava, não na maior parte de suas declarações da referida entrevista. Esse foi o resultado final dos seus estudos. Nasce o ambientalista cético, originado, na verdade, do ceticismo ao libertarianismo de Simon.
Pesquisas à parte, uma das coisas menos exploradas dessa polêmica é a orientação do trabalho do dinamarquês. Qual deve ser a razão das preocupações ecológicas: o bem-estar do homem em sua relação com natureza ou apenas a natureza em si mesma? Bjørn Lomborg deixa claro, mesmo sem declarar explicitamente, que escolheu a primeira.
O foco do seu último livro, o Cool It – The Skeptical Environmentalist's Guide to Global Warming, como o título evidencia, é o aquecimento global. Ele escreve que a afirmação de que não nos adaptaremos ao aumento de temperatura neste século lhe parece algo muito "irrealista e conservadora". E Lomborg aponta exemplos fascinantes de como o cenário real não está sendo entendido em sua devida proporção.
O número de mortos por ondas de calor na Europa, por exemplo, não é pequeno: 3.500 mortos só em Paris, 15 mil na França, sete mil morreram na Alemanha, oito mil na Espanha e Itália, e dois mil no Reino Unido. Mais de 30 mil no total. Isso deixou muita gente preocupada e houve um alerta geral. Mas e os que morreram de frio? Só na Grã-Bretanha, 20 mil pessoas morreram porque não agüentaram o inverno. Nos invernos de 1998 a 2000, a média anual dos que sucumbiram ao frio foi de 47 mil mortos. Trinta mil pessoas em vários países que morreram por causa do calor foi uma notícia que sensibilizou diversas ONGs, governos, jornais e leitores. Mais de 40 mil morreram num só país por causa do frio, foi uma nota que passou quase despercebida. Na verdade, um milhão e meio de europeus morrem todo ano em conseqüência do frio. Fica a questão: é melhor gastar (sim, o dinheiro é escasso) num sistema de saúde melhor que resulte num melhor bem-estar do homem em relação a uma mudança climática (considerando-se seu real impacto) ou despender esforços, diminuir a arrecadação do Estado, os lucros das empresas, a produção de bens (tudo com um custo muito alto, com resultados muito controversos) para limitar a emissão de CO2? Sejamos céticos à Lomborg: não apenas duvidar, mas também fazer as perguntas certas.
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