Federação: tributos e encargos
Assistimos, nestes dias, verdadeiro duelo entre União Federal, Estados
e Municípios a respeito da distribuição de tributos. Sempre defendi o
fortalecimento dos Municípios e dos Estados. Nossa Federação nunca
existiu, pois os Municípios, se têm escassa independência política,
nunca tiveram independência econômica. A situação não é de hoje. Aos
Estados interessa o enfraquecimento do Município e o fortalecimento
dos oligarcas locais: os "coronéis". Estabelece-se o sistema de troca
de favores. Em contrapartida ao recebimento do auxílio financeiro e
das nomeações que lhes garantem o poder local, os "coronéis" elegem os
candidatos dos governadores. Da mesma maneira a União, tornando os
Estados fracos, faz dos governadores meros pedintes da bolsa federal,
sujeitando-os às imposições eleitorais da chefia suprema. Assim, o
presidente da República, através do governador, exerce seu poder na
mais longínqua comuna. É evidente que este panorama é diferente
conforme as regiões do país. O fenômeno do "coronelismo" praticamente
desapareceu nos Estados mais adiantados do Sul do país, mas não no
Norte-Nordeste. É, pois, salutar o fortalecimento dos Municípios
através da melhor distribuição dos tributos. Mas, se desejamos tirar
rendas da União e transferi-las para os Estados e Municípios, temos
também que pensar na transferência de encargos. Existe hoje uma série
de atribuições da União que poderiam passar tranqüilamente para os
Estados. Ao sabor da pena, vou fazer algumas perguntas. Por que a
necessidade de universidades federais? A educação deveria ser toda
atribuída aos Estados e Municípios. A rigor, muitas das atuais
atribuições do Ministério da Educação poderiam ser delegadas às
Secretarias de Educação estaduais. Os currículos, em país continental
como o Brasil deveriam obedecer às características regionais.
Criar-se-iam as necessárias taxas estaduais de educação e o orçamento
da União ficaria bastante aliviado.
Outro assunto: por que cabe à União construir estradas? Aprovado o
Plano de Viação Nacional pelo Congresso Nacional, ficaria a cargo dos
Estados a construção das rodovias federais que atravessassem seus
territórios. Os impostos arrecadados, pedágios, etc, seriam matéria
estadual. É preciso que se continue a pensar seriamente nas
privatizações das rodovias, como felizmente estamos pensando, assim
como em portos marítimos. Por que a centralização brasiliense? Aos
Estados e cidades deve caber a administração de seus portos e garantir
seu funcionamento mediante cobranças das respectivas taxas,
privatizando-os sempre que possível. O mesmo se aplica aos aeroportos,
ficando somente a segurança aérea a cargo de um departamento federal
especializado. A questão da saúde deveria ficar a cargo das
secretarias estaduais e, sob esse título incluída também a
assistência médica hoje prestada pelo SUS.
Poderia continuar citando uma série de encargos hoje atribuídos à
União e que poderiam facilmente ser passados para os Estados e
Municípios. Creio, pois, que antes de se pensar em transferir tributos
da União para os Estados deveríamos decidir claramente quais devem
ser os encargos da União, quais devem ser os encargos dos Estados e
municípios e criarmos uma verdadeira federação. Essa decisão é urgente
e prioritária a qualquer reforma tributária. Resta saber se os nossos
burocratas federais estão dispostos a perder poder. Mas é necessário
fazer com que percam, para o bem do país.
José Celso de Macedo Soares
|
|