Livres para contratar
Preceito fundamental para a convivência humana é o respeito à palavra
empenhada. David Hume escreveu quais seriam os três fatores essenciais
para uma sociedade florescer: 1. O respeito ao direito de propriedade.
2. A transferência por consentimento. 3. O cumprimento dos
compromissos assumidos. A forma contemporânea de assumir compromissos é o contrato, vital nas sociedades impessoais.
No nosso dia-a-dia, assinamos milhões de contratos. Tais como morar
em condomínio, alugar imóveis, associar-se para empreender, para
trabalhar, sindicalizar-se. Um contrato envolve promessas negociadas e
aceitas entre adultos responsáveis. É a forma de empenhar a palavra.
Mas o que assinamos pouco tem dessas características. São formulários
em que as partes preenchem os nomes. Não há negociação. Não há empenho da palavra. O processo político nos substituiu como negociadores. Temos pouca negociação na entrada e muito conflito na saída. Um bom
contrato é o oposto. Não reconhecemos a sabedoria popular de que "o
combinado não é caro".
A ablação do nosso direito de contratar é justificada pela palavra de
ordem de sermos iguais perante a lei, mas com a premissa da
desigualdade das partes. Retorcemos o fundamento que é ser a lei igual
para todos. Subvertemos o papel pacificador do Direito amplificando o
conflito, que já é da natureza do convívio social. Em matéria
econômica, ignoramos o entendimento do papel da incerteza e das
expectativas. Julgam-se intenções a priori e não atos. Imputa-se dolo
onde pode haver erro de julgamento.
Mais gravemente, o direito alternativo, usando o princípio que
desiguais devem ser tratados de forma desigual, acrescenta ao
paternalismo da nossa legislação maior insegurança jurídica e mais
conflito. O empreendedor privado se afasta sob expectativas de
incerteza jurídica e conflito. Conflito é um estúpido custo de
transação e quanto maior, maior a pobreza.
Um exemplo da distorção é o contrato de trabalho, em que o trabalhador
nada decide, pouco leva para casa e ignora o que paga para o governo.
Temos o pior de todos os mundos, com custos trabalhistas relativos
altos num país pobre. Avaliado em cafés expressos, um barista em São
Paulo custa mais caro que um barista em Nova Iorque, exemplo que se
repete pela economia brasileira. Não é o custo absoluto, mas sim o
relativo o único critério que o empresário usa ao contratar alguém.
Mais absurdo é o contrato sindical, que todo trabalhador e todo
empresário adere de forma compulsória, pagando impostos para os
sindicatos, que são corporações estatais e monopolistas. Muitos
sindicatos são hoje verdadeiras capitanias hereditárias. Outros,
organizações quase mafiosas.
Liberdade de contratar não é darwinismo social. É fundamento moral
para nossa convivência. O que se observa hoje é um estado-babá
corruptor, crescente infantilismo civil e a perda do valor da palavra
empenhada.
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