O verbalismo oco no Brasil
Assisti algum tempo atrás, pela televisão, decisão da mais alta corte
de Justiça da Inglaterra sobre a permanência ou não do general
Pinochet naquele país, onde respondia a processo criminal. Cada
magistrado levantava-se e dizia, sinteticamente, se era contra ou a
favor, acrescentando que distribuiria a todos as razões de seu voto no
documento que apresentava naquele momento à corte. Assim procederam
todos os juízes. O julgamento não demorou 30 minutos.
Em contraste, temos as decisões de nossas cortes sobre assuntos
diversos. Cada juiz faz questão de ler, demoradamente, todo seu voto,
enxertado de citações, palavras em latim, leitura que em alguns casos
chega a mais de uma hora para cada um. Tudo para, ao terminar,
anunciar sua decisão, contra ou a favor. Este é dos muitos exemplos de
nosso amor aos floreios de linguagem, à crença de que o falar bonito é
que dá ao orador a fama de culto. A forma é tudo. O conteúdo é de
somenos importância.
Os brasileiros gostam dos superlativos, do discurso longo. E nossos
eclesiásticos? Quem não se lembra dos longuíssimos sermões pregados
durante as missas, em que nada se entendia, mas tinham de ser
floreados, recheados de citações, em que o fim nada tinha a ver com o
começo da oração? Essa é a tradição portuguesa, tão a gosto de nossos
professores e homens de letras. Para sermões longos é preciso ser um
padre Vieira e este mesmo, em sua sutileza de espírito, terminava uma
de suas cartas: "Peço desculpar-me de ter sido tão longo, por não ter
tempo de ser breve".
Alguns de nossos articulistas, na imprensa, parecem ter a preocupação
de mostrar erudição esquecendo de expor com clareza seu pensamento.
Termina-se de ler o artigo e pergunta-se: o que quis dizer o autor?
Onde estão o enunciado, a análise e a conclusão? Perdidos na
preocupação com a forma. Esqueceram do conteúdo...
Habito curioso que temos é, em reunião, todos falarem ao mesmo tempo.
O estrangeiro se espanta com isso. Interessante história me foi
contada por um oficial de marinha a respeito. Durante a construção do
antigo navio-escola Almirante Saldanha, na Inglaterra, a Marinha
Brasileira, como de hábito, mandava para o estaleiro construtor os
oficiais que iriam guarnecer o navio, para aprendizado e para conhecer
a embarcação, pouco antes do término de sua construção. Hospedavam-se
todos no mesmo hotel. Depois do jantar, reuniam-se para o costumeiro
bate-papo nas poltronas da sala-de-estar. Depois de algum tempo
notaram que todo dia um inglês, que estava hospedado no hotel,
sentava-se em poltrona próxima e ficava, atentamente, ouvindo a
conversa dos oficiais brasileiros. Até que um deles, achando o fato
curioso, acercou-se do inglês e perguntou-lhe: "O senhor fala
português? Talvez queira se juntar a nós no bate-papo?" Ao que o
inglês retrucou: "Não, não falo português. O que estou tentando
aprender é como vocês se entendem falando todos ao mesmo tempo".
Toda essa coisa tem explicação histórica. Em 1549, quando chegou ao
Brasil o primeiro governador, Tomé de Sousa, vieram os primeiros
padres da Companhia de Jesus, que iriam dar início a sua grande obra
educacional no Brasil. Sem negar o mérito do ensino jesuítico nos
primórdios de nossa formação cultural, é evidente que ele era
excessivamente literário e retórico. Isso refletia o caráter da
educação portuguesa. O predomínio da Companhia de Jesus em Coimbra
afastou da cultura portuguesa os estudos científicos e o método
experimental.
Outro aspecto a chamar atenção é a falta de concisão e a prolixidade
de nossas leis e documentos públicos. Tomemos como exemplo nossa atual
Constituição. Com nosso amor aos textos longos e rebuscados, tem 245
artigos no corpo principal e mais 70 nas disposições
transitórias. Já sofreu, desde sua promulgação há apenas 20 anos,
dezenas de emendas. Seguindo nossos hábitos, a Constituição é prolixa,
parecendo mais uma colcha de retalhos, mais preocupada em defender
interesses corporativos que estabelecer os princípios dos direitos
fundamentais da sociedade e do cidadão.
Como exemplo do oposto, temos a Constituição dos Estados Unidos da
América, promulgada em 1787, com apenas sete artigos e, desde sua
promulgação, há mais de 200 anos, sofreu apenas 26 emendas. É exemplo
de documento conciso, trazendo no seu texto tudo que é necessário ao
ordenamento jurídico do pais e à proteção aos direitos do cidadão.
A tendência brasileira ao verbalismo oco, à prolixidade nos textos
legais, à preocupação com a forma e não com o conteúdo, tudo isso
precisa ser corrigido. Pensar que escrever ou falar cheio de floreios
significa demonstração de erudição, sem se preocupar com a correta
mensagem a ser transmitida, é um dos muitos mitos que temos de
erradicar da inteligência nacional. Espero não ter incorrido nesse
erro com este artigo...
José Celso de Macedo Soares é Almirante, escritor e colaborador do
Instituto Millenium
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