O culpado é o estrangeiro?
No nosso arraial "esquerdizante" é bonito atacar o estrangeiro como
causador de todos nossos males. Político de certo prestígio não se
cansava de repetir a cantilena: a causa de nossos males são as "perdas
internacionais". Difícil é definir o que são "perdas internacionais".
Acho que nem ele sabia.
Para a grande maioria dos brasileiros, o capital estrangeiro é
imperialista e colonizador. Mas será que esta tese se aplica
internacionalmente? Alguns respingos da história: como as nações se
tornaram ricas? Portugal e Espanha encheram suas burras com ouro e
prata retirados de suas colônias. Eram grandes impérios coloniais e,
de acordo com a teoria marxista, exerciam plenamente a exploração do
trabalho alheio. Mas, isto levou estas duas nações à riqueza? Pelo
contrário, empobreceram. Na época, a Inglaterra, sem nenhum império
colonial, foi se tornando próspera. E por quê? Porque aperfeiçoou seu
sistema de governo e, desde os primórdios desta arrancada, fez
respeitar na pequena ilha os princípios fundamentais das liberdades
humanas e do trabalho como base.
A Inglaterra é a pátria dos grandes documentos constitucionais. Já em
1215, mais de sete séculos atrás, o rei João Sem Terra era obrigado a
outorgar aos barões e à burguesia a Magna Carta em que nenhum imposto
poderia ser criado sem o consentimento do Conselho do Reino. Foi a
Magna Carta a criadora do Parlamento Moderno. Depois da Magna Carta,
vieram a Petição de Direitos, de 1628; o Habeas Corpus Act, em 1679; a
Declaração de Direitos, em 1689 - que estipulava, entre outras, coisas
a reunião periódica do Parlamento - e, finalmente, o Act of Settlement
de 1701, que impedia a destituição dos magistrados pelo rei. Atentem os
leitores para a data da emissão destes documentos. O mais moderno tem
mais de dois séculos de existência. A prosperidade da Inglaterra se
deu, pois, pelo estabelecimento do Estado de Direito, que permitiu seu
desenvolvimento empresarial. Não se deu por causa da colonização daÍndia, da África ou do Oriente Médio. Só depois de se tornar prósperaé que surgiu o Império Britânico. Ao contrário, em Portugal e Espanha
a exploração colonial trouxe o entorpecimento do espírito empresarial,
levando estes países ao empobrecimento. Serviu, principalmente, para
enriquecimento da nobreza ociosa.
Mas voltemos ao Brasil. Explica-se em parte este xenofobismo - aversão
ao estrangeiro - por algumas camadas de nossa população pelo fato de
termos sido colônia por tanto tempo e mal colonizados. A aversão ao
colonizador português extravasou para o resto das outras nações.
Felizmente, nem todos pensam assim.
É preciso que se entenda que hoje no mundo a prosperidade dos povos
vem, principalmente, da capacidade tecnológica e cultural de seus
concidadãos e da capacidade de iniciativas e inovações de suas
empresas. Todos estes fatores elevam a capacidade produtora do país,
enfim, criam sua prosperidade.
A síntese de tudo que afirmo se resume na máxima: nem tanto ao mar,
nem tanto à terra. Olhemos com pragmatismo nossos problemas, aceitando
os capitais, vierem donde vierem, desde que respeitem as leis
brasileiras, sem nos esquecermos de que somos nós que fazemos nossas
leis. O importante não é onde vivem os acionistas, e sim onde se
situam as fábricas, geradoras de empregos.
No relacionamento internacional, o tratamento entre nações deve ser o
da estrita reciprocidade. Entre nações não há amizades, há interesses
coincidentes. Foi o que demonstraram todos os países hoje chamados
desenvolvidos. Eles não chegaram aonde chegaram fazendo benesses aos
paises pobres.
Minha experiência em participar de várias conferências internacionais,
tratando de nossos interesses marítimos, ensinou-me que quem tinha
razão era John Graham, visconde Dundee (1649-1689): "Negócios são como azeite, não se misturam com outra coisa que não seja negócio".
Nesta época de interação entre nações, comumente chamada de"globalização", não cabe mais o xenofobismo. O que vale é a capacidade
de produzir de cada povo, a busca da qualidade e da eficiência, no
dia-a-dia de suas atividades. O resto é subdesenvolvimento e não
adianta culpar outros países por isto.
José Celso de Macedo Soares é Almirante, escritor e colaborador do
Instituto Millenium
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