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A outra crise dos alimentos

Yurisel Laborde, a cubana bicampeã mundial de judô desertou. É mais uma no crescente universo de pessoas que preferem se arriscar no mundo não-bolivariano - moderna chancela para o velho "socialismo" - do que viver sob um regime que alguns classificam como um exemplo no cumprimento dos tais direitos humanos. Por que é tão difícil fugir de Cuba? Tomar uma decisão como esta não é tão complicado se você vive em uma democracia. Não gosta das políticas públicas de seu governo? Emigre. O Brasil é um exemplo disto: nos anos 90, descendentes de japoneses tentaram a sorte no Japão e, hoje, coreanos e bolivianos tentam a sorte no Brasil. Somos o destino e o ponto de partida para os sonhos e decepções de muitos.
Em um regime que controla a distribuição de alimentos - como é o caso de Cuba - exilar-se significa deixar os familiares nas mãos do governo. Aquele que monopoliza lei também monopoliza a comida. Pão e circo são decididos pelos burocratas do regime. Não é difícil ver o que se passa na cabeça de quem decide desertar. Por que você acha que os desertores falam tão pouco sobre os malefícios do bolivarianismo cubano?
De uns tempos para cá, da ilha do Dr. Moreau, digo, de Fidel, com sua repressão política e pragmatismo econômico, muito amigável às democracias de mercado e seu rico dinheirinho, começamos a ouvir  raivosos discursos (de Fidel) contra o biocombustível, supostamente motivado por alguma preocupação humanitária. Na verdade, o governo cubano se esquece de mencionar um outro problema sério de fome: o de seu próprio povo. Levando a sério o que diz a ONU - e está difícil levar a sério a ONU ultimamente - Cuba é um país com problemas sérios de subnutrição e este existe muito antes do que qualquer suposta crise mundial de alimentos.
É bom lembrar que Amartya Sen, em seu livro Desenvolvimento como Liberdade, mostrou que crises de fome, na história, têm um único responsável: os governos. Cuba não é exceção. Seu racionamento de alimentos é, sem dúvida, uma das causas do êxodo dos cubanos. Trata-se de uma crise alimentar que dura anos e que nunca foi alvo de tamanha comoção por parte dos "formadores de opinião". Eis o mais fascinante de tudo: uma alteração na oferta e/ou na demanda parece causar mais comoção em nossos intelectuais do que a subnutrição cubana causada por políticas conscientemente planejadas do governo cubano. Por que existe esta ambigüidade é uma pergunta sobre a qual vale a pena refletir.

Claudio Shikida


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