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O pãozinho está caro

Segundo a Organização das Nações Unidas (ONU), há pelo menos 37 países em estado de emergência devido à alta de preço dos alimentos, o que está provocando uma enorme tensão social em todo o mundo. No Haiti e no Egito, com grandes filas por pão, pessoas já morreram em protestos contra a falta de alimentos. Neste sentido, outro ponto de tensão são as controvérsias quanto a uma relação direta entre os biocombustíveis e a alta de alimentos. Para o ex-comissário de Agricultura da União Européia, Franz Fischler, a explosão de preços dos alimentos é causada pela especulação e colheita ruins, adicionado a situações como o aumento explosivo da demanda alimentícia em alguns países (Índia e China, por exemplo). O economista Sérgio Schlesinger – autor do livro O Grão que Cresceu Demais: a Soja e Seus Impactos Sobre a Sociedade e o Meio Ambiente – discorda de Fischler e entende que a produção em massa dos biocombustíveis elimina as terras férteis para o cultivo de alimentos para a população, o que gera a alta dos alimentos e um ambiente de inflação mundial crescente.

Para Schlesinger, a terra e a água estão escassas e os biocombustíveis concorrem com os alimentos na disputa de território e de água.

As autoridades mundiais do setor alimentício vêem a atual crise com um nível de preocupação que remonta grandes crises históricas, como a do século XIV, onde a fome, a peste e as guerras formaram a chamada trilogia da crise feudal, que resultou na morte de milhões de europeus, no final da Baixa Idade Média. De lá para cá, o cenário pouco mudou, segundo relatório elaborado pela divisão de agricultura e alimentação da ONU (FAO), que apontou a existência de 850 milhões de pessoas com fome no planeta. Para o ano de 2015, a projeção da FAO estabelece que o número de famintos no mundo atingirá o patamar de 1 bilhão de pessoas. Tais números levaram a ONU a declarar a fome como a causa maior de morte dos seres humanos, tendo em vista que a carência de alimentos e de nutrientes mata mais pessoas nos países pobres do que a Aids, a Malária e a Tuberculose juntas.

Com a controvérsia do biocombustível e a alta dos alimentos nos holofotes da mídia, qual será o impacto político para o governo brasileiro, em ano de eleições, levando em consideração a disparada dos preços da cesta básica e o conseqüente reflexo no orçamento das famílias de menor poder aquisitivo?

É necessário refletir sobre a escalada dos preços dos alimentos: houve novo aumento na segunda semana de abril, com alta de 0,76% (em relação aos 0,64% da semana anterior) do índice de preços ao consumidor-semanal, divulgado pela Fundação Getúlio Vargas. Destaque-se, aí, o caso do pãozinho.  Figura do folclore popular, o pãozinho configura-se como uma das últimas resistências de combate à fome pelos excluídos, de tal maneira que a "média" e o pão com manteiga representam o cardápio mínimo para 14 milhões de brasileiros que sofrem com a fome e a desnutrição. O pãozinho está caro, e vai ficar mais caro, com uma estimativa de aumento dos preços da massa de pães da ordem de 10% a 15%.

A crise do pãozinho é reflexo de toda uma política da cadeia alimentar, no plano nacional e mundial. E no contexto da controvérsia entre a produção de biocombustível e a alta dos preços dos alimentos, já é hora das autoridades estabelecerem a sua prioridade, e do mundo pensar em alimentar a humanidade, ao invés de alimentar automóvel e caminhões. Senão, voltaremos ao século XIV.

Arlindo Silva


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