Setores estratégicos
No imaginário dos que acreditam que estatizar os meios de produção é a única forma de proteger o país da sanha dos empresários gananciosos e do estrangeiro inimigo de nossas riquezas, avulta a discussão sobre os chamados setores estratégicos da economia. Seria bom, antes de entrarmos na discussão do problema, definir o que significa a palavra "estratégia".
Segundo os bons compêndios, estratégia "é a arte de explorar condições favoráveis com o fim de alcançar objetivos específicos". Aí está. De acordo com os estatizantes, só o Estado pode garantir este desiderato em certos setores, que eles chamam de estratégicos. Não obstante a falácia, pergunto: quais são os setores estratégicos em uma economia moderna? Seria a produção do petróleo? As telecomunicações? Ou a produção de minérios? A educação? Não será a produção de alimentos? Afinal, a alimentação é vital para a sobrevivência do ser humano. Por aí se vê que a discussão é vasta. Mas, para encaminhar o raciocínio, vamos abordar alguns setores específicos.
Começo pelo petróleo. Neste setor é que se esbanjava o fervor dos falsos nacionalistas. O petróleo é nosso, foi o hino sagrado dos xenofobistas. Criou-se o monopólio da Petrobrás para garantir nosso petróleo, que ainda não existia. Felizmente, o bom senso prevaleceu e este monopólio foi extinto, permanecendo o monopólio do poder concedente: o Estado brasileiro. O resultado da competição resultante aí está para que todos possam ver.
Consideremos, agora, o setor das telecomunicações. Não preciso alongar-me nos benefícios que trouxe a todos os brasileiros a extinção das empresas estatais de telefonia.. O telefone deixou de ser artigo de luxo para ficar ao alcance de todas as classes sociais. Já imaginaram se a Internet fosse monopólio do Estado?
Vamos à questão da exploração de minérios. Por décadas, sofremos atraso na exploração destes recursos naturais, tais as restrições emanadas em nossas leis e regulamentos contra o capital estrangeiro. As tentativas dos estatizantes para barrar a privatização da Vale do Rio Doce atingiram as raias do inverossímil, como se a honra nacional estivesse em jogo.
Agora, o setor, no meu entender, vital para a economia de um país: a produção de alimentos. Se vamos discutir setores estratégicos, este, sem dúvida é o mais importante. Que o diga o atual clamor mundial sobre o que chamam de crise da alimentação dos povos. O Brasil é um país que produz o bastante para alimentar sua população. Os produtos básicos são todos aqui produzidos. Felizmente, a produção agrícola e da pecuária está, em sua totalidade, nas mãos da iniciativa privada. A exportação brasileira tem sua pauta recheada de produtos agrícolas. É sintomático que os estatizantes pouco bradam pela nacionalização do setor. Talvez porque não possam contribuir com grande soma de empregos tão a gosto de políticos fisiológicos...
Finalmente, temos o setor educacional, nele integrando-se ciência e tecnologia. Se há setor que possa ser chamado de estratégico, este, com certeza, é primus inter pares. Ninguém duvida que a educação é fundamental e é a base para que qualquer país possa atingir o nível de nação desenvolvida. Mas, como propiciar educação a todos? Como levar à escola crianças subnutridas, filhas de pais que mal conseguem o mínimo para se alimentarem?
Daí se conclui que o esforço educacional está inserido no contexto geral da economia de um país. Educação e cultura custam dinheiro, que só pode ser conseguido com esforço de todos os setores da economia, conjuntamente. Meritório foi o programa Bolsa-Escola, que propicia às famílias carentes o envio de suas crianças à escola.
Embora não se subestime a importância da universidade pública no esforço educacional de um país, no Brasil alguma coisa tem de ser modificada neste setor, a começar pelo sistema básico de sua sustentação financeira.
Nos Estados Unidos, por exemplo, a sustentação das universidades estatais vem, em grande parte, das pesquisas e projetos que realizam para organizações particulares.
Concluindo, é preciso que se compreenda que na economia de um país moderno não há setor que se considere mais estratégico em relação ao outro. Todos os setores têm de trabalhar em conjunto, não sendo possível dizer qual deles tem preponderância sobre outro, pois estão todos interligados.
Dirigir um país é como dirigir uma orquestra. Basta que um instrumento desafine para que comprometa todo o conjunto. De acordo com a definição de estratégia, o bom governo tem de ter a arte de explorar condições favoráveis para alcançar os objetivos gerais de engrandecimento do país, como um todo.
Dar ênfase a este ou aquele setor chamado de estratégico e, acima de tudo, acreditando que estes setores só podem ser bem geridos pelo poder público, com empresas estatais, é síndrome da demência mental de alguns políticos e pseudo-conhecedores de economia. Felizmente, no Brasil, esta mentalidade começa a ser combatida.
José Celso de Macedo Soares
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