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De quem é a culpa pelos déficits da balança comercial?

Nos meios de comunicação encontramos vozes de alguns empresários (e também de alguns esotéricos que se dizem economistas) tentando nos vender a idéia de que déficits na balança comercial são, em si, algo maligno.

Diz-se que tais déficits seriam uma hecatombe para o país. Mentira. Como todos nós sabemos, possuir dívida só é problema se você não tem como pagar e, no caso do setor externo, a entrada de reservas, há um bom tempo, vai bem, obrigado.

Mas vamos prosseguir com a economia de má qualidade que guia os esotéricos de plantão. Se há déficit na balança comercial, as empresas e consumidores do país importam mais do que exportam.

Isto é “maligno”? Vejamos. Se eu desejo comprar o filme Soy Green, com Charlton Heston, e não acho - como de fato não o acho mesmo - no "mercado" nacional, tenho a liberdade de aumentar meu "capital cultural" importando o DVD. Se, além disso, compro um DVD player multirregional (importado por algum empresário), resolvo meu problema. Há algo de essencialmente ruim nisto?

Concordamos com empresários quando reclamam de esotéricos da economia que os classificam dos mais abomináveis nomes, como se a classe trabalhadora fosse um exemplo de pureza.

Graças à política dos últimos anos, somente um alienado (no conceito marxista?) diria que tal classe é um exemplo de ética, pois se empresários são seres humanos como nós - e há quem diga que todo mundo é um pouco empreendedor (nova auto-denominação de empresários a partir dos anos 90) - então eles também têm direito de importar seus DVDs. Diga-se de passagem, conhecemos vários que o fazem e têm aproveitado o tal "câmbio sobrevalorizado" para enriquecer suas cinematecas particulares.

Empresários podem ter ou não sucesso atendendo ao consumidor. Falhar neste objetivo pode significar o início de incestuosa relação com políticos em busca de recursos sem qualquer preocupação com o que
desejam os consumidores.

Empresários deste tipo têm muito menos sucesso em países mais capitalistas, que prezam mais o mercado do que o networking pouco virtuoso que acabamos de descrever. Mas o fato é que, de uma forma ou de outra, empresários têm, em média, uma vida mais confortável do que o restante da população. Isto significa que geralmente importam produtos mais caros do que um simples DVD.

Se tais empresários realmente acreditam que o governo deve restringir a importação de "supérfluos" (segundo eles) e manipular o câmbio para estimular a exportação de "setores estratégicos" (segundo eles), então deveriam começar a mudar também seu modo de vida familiar para algo mais franciscano (o que agradaria supostos "formadores de opinião" que vêem na riqueza a causa de todos os males, embora se recusem a emigrar definitivamente de Copacabana para Havana). Ou talvez seja a hora de alguns empresários pensarem melhor no discurso que pretendem (ou tentam) vender à sociedade.

Por Cláudio Shikida e Ari F. de Araújo Jr.
(Ari F. de Araújo Jr. e Cláudio D. Shikida são professores do Ibmec-MG)

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