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Max Teixeira - literatura@avozdacidade.com

Amor de cachorro

A Mel é fiel. Isso mesmo, a Mel é fiel.

Vamos explicar: Mel é a cadelinha da vizinha, uma poodle de pelagem crespa e macia, realmente cor-de-mel, de estatura talvez menor que um palmo. Pois é, acontece que a dona da Mel achou que estava na hora de a menina arranjar um namoradinho, ou seja, arranjarem para ela. Houve muita expectativa e muitos candidatos surgiram. Claro que teria que ser um o mais aproximado possível de seu porte e da mesma raça. O primeiro candidato, o Bob, foi levado pelo meu netinho. Para surpresa de todos, Mel o esnobou, virou o pequeno focinho para outro lado e o repeliu a cada vez que ele se aproximava. Para tristeza do Bob, que já estava bem assanhadinho, tiveram que levá-lo de volta, que procurasse outra. Para o seu dono, o que atrapalhou foi o fato de Bob ser dentuço, por isso não agradou. Com aqueles dentões para fora, como ela ia dar um beijo nele, justificou o dono.

A maratona continuou, outros candidatos surgiram, mas a madame continuava de nariz em pé, todo-poderosa, implacável, não aceitava nenhum que lhe apresentassem. Já estava se tornando antipática em sua empáfia de pouco mais de vinte centímetros. Houve quem tomasse aquilo como um desafio.

Um dia um senhor apareceu na casa com o Bingo, um famoso conquistador que tinha fama pela sua beleza incontestável e que jamais fora recusado por uma possível esposa. Pois bem, o Bingo teve que ser retirado urgente de perto da valentona que já havia lascado umas mordidas em seu rabo, expulsando-o sumariamente.

Considerando que Bingo era irresistível e nada conseguira, houve uma desesperança completa. O jeito era deixar a garota de lado, podia ser uma assexuada ou até mesmo homossexual. Decidiram dar-lhe um tempo para que ela repensasse sua posição tão intransigente. Mais tarde voltariam com novas tentativas.

O que ninguém sabia é que havia algo por trás daquilo tudo. É, ninguém imaginava que Mel tinha um bonitão em sua vida. Era o Bambam, um vira-lata preto-e-branco, meio sem-dono, bem maior que ela, que vivia por ali, à espreita de uma oportunidade para chegar mais e conseguir seu intento. Era um namoro secreto, antigo. Sempre que podia Bambam se encostava às grades do portão da casa e os dois se cheiravam profundamente, focinho contra focinho, porque a grade era estreita e o resto se tornava impossível. Tornara-se um amor platônico forçado, porque qualquer contato era irrealizável.

A presença de Bambam por ali não era de todo ignorada, mas ninguém suspeitava que pudesse haver qualquer sentimento amoroso entre eles, considerando ser ela uma jovem prendada, alvo de todos os mimos da casa, sempre cheirosinha e Bambam, o oposto, sempre sujo e malcheiroso. Mas a verdade é que ele tinha algo que os outros não tinham e ninguém sabia disso. Um pretendente que vivia sempre sendo enxotado da casa.

Mel adorava fugir. Era abrir o portão e, um mínimo descuido, estava ela na rua. Aí saía a família toda em seu encalço. O grande terror era Bambam, que podia estar por perto. Dar-lhe um tempo seria fatal, com certeza.

Os dias nem sempre são iguais e existem os atos falhos. Um dia, a filha da dona da Mel esqueceu o portão aberto e quando se lembrou já alguns minutos se passara. Ela vistoriou as imediações, achou a fujona e a recolheu. Por medo de represálias, não contou o fato a ninguém.

Pois bem, o tempo passou e um dia, reparando bem, notaram que a Mel estava meio barrigudinha. Será?... se entreolharam e interrogaram.

A visita ao veterinário foi imediata e a conclusão, inexorável. A ultra-sonografia não mentia – Mel estava gravidíssima. Pior, iria entregar ao um mundo nada menos que oito bibelozinhos. Ou seria oito bambanzinhos?

E o Bambam, como todo mau-caráter, desapareceu. Estava explícito que não queria assumir a responsabilidade paterna.

Max Teixeira, da redação de A VOZ DA CIDADE, é membro do Grêmio Barramansense de Letras, da Academia Barramansense de Letras e da Academia Barramansense de História


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