Drama do quase cotidiano
Caiu na rua, de repente. No meio da calçada. O óculos ficou espatifado, a meio metro dos olhos, com as lentes partidas. Em princípio mexeu um pouco com as pernas, depois, ficou inerte, mas dava para perceber sua respiração, ofegante. Houve quem achasse que estava bêbado, mas seu aspecto, além da roupa e dos sapatos de grife, desmentiam essa suposição.
Como sempre acontece, juntou gente a seu redor. Muita gente. Reviravam os bolsos e encontraram documentos e dinheiro. Nada de endereço ou número de telefone.
Logo começou o disse-me-disse.
Como de médico e louco todo mundo tem um pouco, começaram os “diagnósticos”. Um grandalhão, com gestos de entendido, foi empurrando as pessoas, gritando que teriam que se afastar, porque o “paciente” precisava respirar. E deu o “veredicto”:
_ É epilepsia; não toquem nele que isso passa e daqui a pouco ele volta à “tona”. Uma mulher, nervosa com a situação, o repreendeu:
_Me desculpe, meu senhor, mas quem tem crise de epilepsia não fica estático, se bate muito. É preciso que alguém o leve a um hospital. Quem pode fazer isso?
Após sua sugestão, rapidamente o número de pessoas que estava ali reduziu pela metade.
- Eu não tenho carro.
- Meu carro está muito longe daqui.
- Tenho um compromisso exatamente agora e não posso perder tempo.
- Quem sabe alguma ambulância; alguém aí deve chamar uma ambulância. É urgente!
Passa um táxi e alguém chama o motorista.
- Quem vai pagar a corrida? - resume ele a questão.
Ninguém. E o taxista vai embora.
Chega um garotão com trejeitos de efeminado, debruça sobre o homem e encosta sua boca na dele, pensando em fazer respiração boca-a-boca, mas deixa perceber que não conhece a técnica.
O grandalhão logo intervém:
- Sai daí, boneca, o homem não precisa disso. Vai beijar seu namorado.
Mais de uma hora após, finalmente surge um cidadão de roupa branca que aparentava ser médico. Chamaram-no e ele, solícito, se abaixa rente àquele corpo estático. Pega-lhe o pulso e faz uma careta. Tenta sentir-lhe a respiração. Em seguida se levanta e dá a palavra final:
- Está morto.
Max Teixeira, da redação de A VOZ DA CIDADE, é membro do Grêmio Barramansense de Letras, da Academia Barramansense de Letras e da Academia Barramansense de História |
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