Memórias de uma merreca de dez
Houve uma grande revolução social e política no país. Felizmente não correu sangue, porque as forças governamentais se entregaram sem resistência, quedando-se ao poderio do adversário. O novo presidente, alçado ao poder pelos braços do povo, era partidário do niilismo, queria um recomeço sem nenhum resquício do governo anterior, com mudanças radicais.
Como não poderia deixar de ser, com uma inflação que beirava os cem por cento ao mês, era imprescindível uma mudança na política monetária. O lisarb (*) real, a moeda corrente, teria que perder os três zeros e, naturalmente, ter maior poder aquisitivo. Optou-se, entretanto, pela mudança de denominação: o lisarb real passou a chamar-se merreca, isto é, o apelido virou nome, já que sempre que alguém queria fazer pilhéria chamava o pobre de merreca. Seria, realmente, um país sério?
A seguir, as peripécias da nova moeda, narradas pela própria:
- Oi! Eu sou a merreca, ou melhor, uma das merrecas. Somos milhões, classificadas de um a dez. Eu sou a merreca de dez, novinha em folha e a mais poderosa, a merrecão ou merrecona. Se quiser me tratar carinhosamente pode me chamar de merrequinha. Comigo você pode comprar uma geladeira, uma televisão, um videocassete ou outras coisas. Acho que sou a merreca-mor, a mais importante de todas, porque na solenidade de lançamento foi justamente eu a escolhida para ser entregue ao presidente da República. Ele me alisou, me beijou e logo me colocou no calor do seu bolso.
Com o passar dos dias, começaram as minhas andanças. Do bolso do presidente fui passada para um ministro, depois para um deputado, logo a seguir para um senador. Daí veio a primeira escorregada – de repente, fui colocada dentro do sutiã de uma meretriz. Até parece narração de futebol: presidente passa para ministro, ministro entrega ao deputado, deputado lança para o senador que enfia na...
É, mas continuei tendo meus dias de glória. Segui minha trilha disputada com o suor de cada cidadão, às vezes a tapa ou até mesmo a tiro. Tanto estive no bolso do modesto trabalhador como do capitalista ou no cofre de bancos. Estive pulando de morro em morro, em troca de drogas que iam para o asfalto parar nas mãos dos poderosos. Viajei cidades e mais cidades, só não fui para o exterior porque lá não me queriam.
Com o passar do tempo, porém, grassando a corrupção nos altos escalões da República e se alastrando por todo o país, o desgoverno falando mais alto, Dona Inflação voltou a imperar. Com isso, minha desvalorização foi implacável. Aos poucos, fui decaindo, alquebrada fisicamente pela velocidade do tempo, rasgada nos quatro cantos, desbotada pelo desleixo dos meus usuários. Passei a só ter valor se acompanhada de milhões de colegas, a verdadeira história de um batalhão de formiguinhas que se juntam para fazer a força e somente assim serem respeitadas.
Um dia, fui parar nas mãos de um mendigo bêbado, dada de esmola. Ele xingou a pessoa que me entregou a ele, por estar eu sozinha e nada representar, e me colocou no bolso de trás. Ai, que fedô!
Assim, mal-cheirosa, fui eu chegando aos meus últimos dias. Nova revolução social foi registrada no país. Os donos do Poder, alquebrados como eu, nenhuma resistência ofereceram aos que surgiram para tomá-lo. Niilismo total novamente e, como não poderia deixar de ser, veio a implantação de uma nova moeda, o acerrém (**) real, todo-poderoso. Com ele podia-se comprar uma geladeira de luxo, uma televisão ou um videocassete. Eu não valia mais uma bala de chupar e meu destino, é claro, não poderia ser outro: junto com minhas colegas fui parar numa grande fogueira.
* Lisarb = brasil da esquerda para direita
** Acerrem = merreca (idem)
Max Teixeira, da redação de A VOZ DA CIDADE, é membro do Grêmio Barramansense de Letras, da Academia Barramansense de Letras e da Academia Barramansense de História |
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