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Max Teixeira - literatura@avozdacidade.com

Petróleo

Quando a esposa do meu amigo me disse que ele havia saído com o Petróleo, todo o pavor que eu tenho de cães me veio à tona. Como meu amigo entraria em casa com aquele monstro?

Meu apetite para o almoço já diminuíra ali. Era a primeira vez que visitava meu amigo, a seu convite, e confesso que não o visitara antes justamente pelo medo do feroz animal.

Notando minha preocupação, a esposa do meu amigo logo tentou me tranqüilizar:

- Fique tranqüilo, rapaz, o cachorro está com a corrente, é manso e meu marido o segura pela coleira.

Pouco depois ouvi a voz do meu amigo. Fiquei meio trêmulo. Para meu desespero, o que aponta no corredor? O monstro negro, sem a coleira – seu pêlo parecia de veludo – e ele apressou os passos quando me viu. Era um animal muito bonito, isso eu não podia negar. Meu amigo conversava com alguém na entrada da casa. Sua esposa, na cozinha, preparava o almoço. Eu ali, na sala, naquela agonia.

Sentado numa poltrona muito baixa, me senti ainda menor diante daquela figura descomunal. Meu amigo já havia me falado de suas proezas: “Para você ter uma idéia, tenho que mantê-lo preso no quintal e mesmo assim, confinado num cubículo, entre outras peraltices conseguiu abocanhar um gato que passava sobre o muro, de quase dois metros, há poucos dias. Em poucos segundos estraçalhou o infeliz. Não havia ninguém em casa”.

As palavras do meu amigo martelavam-me a cabeça.

Solto na entrada da casa, Petróleo entrou, aproximou-se de mim e parou a menos de um metro do meu rosto. Olhava-me por cima. Eu ali, cada vez menor. Em dado momento, fez um movimento brusco, abaixando a cabeça e levantando o rabo. Ficou algum tempo parado, os olhos cravados em mim. Eu também parado, não podia me mover. Um inseto que cruzava a minha frente foi tragado pela bocarra do monstro. Pude aí ver suas terríveis presas. Bela dentadura, por sinal, pensei.

De vez em quando, quebrando a monotonia, ele dava umas voltas pela sala. Cheirava alguma coisa pelos cantos e logo voltava à posição inicial, de frente para mim, encarando-me com suprema superioridade.

Eu ali, entregue ao seu bel-prazer. Fizesse de mim o que desejasse. Nada impediria sua sanha, se sua decisão fosse estraçalhar-me.

Tudo se passava em silêncio total. A esposa do meu amigo continuava na cozinha, alheia ao meu drama. De vez em quando puxava uma conversa.

- Que jogão hoje, hein?!

Entre os dentes eu respondia:

- É.

- Você acha que o Flamengo ganha?

Eu não podia responder.

- O time do Flamengo é melhor, não?

- É.

Finalmente (eu não resistiria por muito mais tempo), meu amigo entra na sala.

Surpreso com minha presença, ele corre a abraçar-me, desculpando-se por ter se ausentado por tanto tempo.

Com extrema dificuldade consegui me levantar. Meu amigo, atônito com meu lastimável estado, me amparava em seus braços. Sentia-me frio, gelado, desmantelado. De quente apenas aquele líquido pastoso que me escorria pelas pernas, na parte posterior da minha constituição esquelética.

Max Teixeira, da redação de A VOZ DA CIDADE, é membro do Grêmio Barramansense de Letras, da Academia Barramansense de Letras e da Academia Barramansense de História


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