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Max Teixeira - literatura@avozdacidade.com

O primeiro assalto

Paulada, um assaltante em potencial, vivia raciocinando sobre como praticaria sua primeira investida, seu primeiro roubo. Claro que teria que ser muito bem pensado, não poderia fracassar, afinal de contas, matutava, o primeiro assalto a gente nunca esquece. Assim, tinha que ser tudo muito bem planejado. Qualquer falha e pronto! Logo chamariam a polícia e já estaria enjaulado, fora de circulação, vendo o sol nascer quadrado, como dizem.

O problema é que Paulada não tinha muita imaginação, não sabia como nem por onde começar. Talvez, pensava, fosse melhor arranjar um comparsa, alguém que pensasse melhor que ele para arquitetar um plano infalível. O primeiro assalto teria que ser arrasador, teria que pegar muito dinheiro logo de cara e se tornar um profissional, não famoso, porque para ser famoso teria que ser muito conhecido, ter sido preso inúmeras vezes e conseguido fugas espetaculares, daquelas que saem nos jornais com belas fotos.

Mas tinha um porém: quem poderia chamar para agir com ele, em parceria?

Depois de muito pensar chegou à conclusão que só havia uma alternativa. Chamaria o Camundongo, seu único grande amigo, em quem poderia confiar cegamente. Mas, nesse caso, o mentor intelectual teria que ser ele mesmo, porque Camundongo era meio pateta e nada poderia acrescentar em termos de planejamento. Bem, pelo menos não seria um assaltante solitário, teria alguém com quem dividir seu nervosismo que ele mesmo sabia, seria infalível quando tivesse que empunhar uma arma. O Camundongo poderia ser útil, de alguma forma.

Por falar em arma, isso não seria problema. Tinha um revólver enferrujado que fora de seu avô. Estava empoeirado e sem bala, mas isso não importava, o importante era pôr medo na vítima. Era incapaz de dar um tiro, ainda mais em uma pessoa. Ele achava que morreria junto com a vítima se isso tivesse que acontecer.

É, mas tinha que ir à luta, porque a situação estava preta. Dinheiro estava muito difícil e os pequenos serviços que fazia na feira, carregando bolsas, quase nada lhe acrescentavam. Paulada estava quebrando a cabeça em busca de inspiração para sua estréia na nova profissão quando ouviu uma conversa entre duas irmãs viúvas, já idosas, na feira. Elas contavam a outra pessoa que tinham muito dinheiro, do seguro de seus maridos, e como não confiavam em banco preferiam guardá-lo em casa.

Ouvindo aquela conversa, ele vibrou, pensando com seus botões: “É isso que eu queria... tá no papo!”

Restava chamar o Camundongo, que também vivia por ali. No outro dia, ao anoitecer, arma em punho, Paulada quase tinha que arrastar o Camundongo que tremia como vara verde. Descobriram uma janela aberta no fundo da casa e a pularam com facilidade. Quando ficaram de frente com as idosas, elas se mantiveram inertes, sem fala. Paulada, tremendo, gritava, perguntando onde estava o dinheiro. Nada de resposta, ninguém conseguia se mexer e o tempo ia passando. Num dado momento, o “mentor intelectual” do roubo chamou o outro para junto de si e confessou-lhe baixinho, ao ouvido:

- Camundongo, estou com uma dor de barriga danada, acho que tenho que ir ao sanitário, urgente.

Nesse momento Camundongo nem mais precisava de sanitário, já tinha resolvido seu problema ali mesmo. Na pressa, Paulada deixou o revólver com quem? Justamente na mão de uma das viúvas que de tanto tremer fez a arma disparar.

Aí, foi uma correria na vizinhança e a polícia acabou aparecendo. A cena a seguir foi patética: Paulada no sanitário e, na sala, as viúvas e Camundongo desmaiados.

Max Teixeira, da redação de A VOZ DA CIDADE, é membro do Grêmio Barramansense de Letras, da Academia Barramansense de Letras e da Academia Barramansense de História


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