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Max Teixeira - literatura@avozdacidade.com

Ídolo de barro

Desde pequeno tinha o tio como seu grande ídolo. Quanto mais avançava nos anos, maior era sua admiração por ele. No seu conceito, o tio era um super-homem. Um valente, um bravo, um destemido, um homem que não tinha medo de nada nem de ninguém. Presenciara isso muitas vezes.

O tio era um grande ginasta, exímio nadador, nunca descuidava de sua forma física, praticando também musculação diariamente.

Gostaria muito de ser como ele, quando chegasse à idade adulta, mas acreditava que nunca teria força física nem coragem o bastante.

Achava estranho que o tio, que morava ao lado de sua casa, vez por outra desaparecia, ficava uns tempos fora. Ninguém lhe dizia por quê. E por que não trabalhava?

Um dia, quando se encontrava próximo de sua casa, viu quando dez policiais chegaram e apresentaram uma ordem de prisão ao tio. Foi um pandemônio. Como um corisco, o “super-homem” se movimentava para todos os lados, esquivava-se de tudo quanto era jeito e acabou fugindo, tomando rumo ignorado.

Só então veio saber que o tio era perigoso, muito mais perigoso do que se podia imaginar, um bandoleiro com vários crimes nas costas. Sem muito senso de justiça, ainda, seus conceitos passaram a ser ao mesmo tempo de repulsa e de admiração pelo seu até então ídolo incontestável.

Pouco depois soube que o tio havia sido preso por um pelotão policial, depois de muita resistência. Era o assunto principal nas rádios, televisões e nos jornais. Todos o classificavam como o bandido mais perigoso da cidade, finalmente atrás das grades.

A partir desse momento não teve mais notícia do tio, a não ser que fora julgado, condenado e transferido para uma penitenciária muito longe dali. Desde então começou a alimentar o desejo de visitá-lo, mas nunca deixaram, sob a alegação de que somente poderia vê-lo quando completasse os dezoito anos.

Finalmente esse dia chegou. Nessas alturas, o irmão de seu pai já era tido por ele como um homem que precisaria de aconselhamento, apoio psicológico, ajuda no sentido de tornar-se um cidadão de bem quando deixasse a prisão.

Era com esse objetivo que queria vê-lo. Em seu íntimo ainda havia um quê de admiração pela valentia do tio, sua coragem, sua compleição física invulgar. Não via a hora de abraçá-lo, apertar-lhe os músculos, mas também ouvir de sua boca que estava arrependido de tudo de mal que fizera, que estava pronto para ser um cidadão de bem.

Quando a porta do xadrez foi aberta, não acreditou. O que viu a sua frente foi um homem magro, fraco, esquálido, um espectro de homem que não ousava tirar os olhos do chão, solícito às ordens do carcereiro.

Abraçaram-se e choraram.

Max Teixeira, da redação de A VOZ DA CIDADE, é membro do Grêmio Barramansense de Letras, da Academia Barramansense de Letras e da Academia Barramansense de História


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