Medo de avião
Meu grande sonho sempre foi conhecer os Estados Unidos. Essa oportunidade, no entanto, nunca pôde passar pela minha cabeça, porque seria uma viagem muito dispendiosa e eu não teria condições financeiras para isso. Então, teria que deixar a vontade ir passando.
Supondo que se pudesse dar uma chegadinha até lá, teria ainda um problemão pela frente. Viajar de navio seria inviável e, por via aérea, bom, aí estaria a grande questão. Tremia só de pensar em entrar num avião e daí a pouco ele levantar vôo. Não saberia dizer o que seria de mim lá nas alturas. Só se fosse anestesiado antecipadamente e acordar em terra firme, já em solo americano, pensava.
Seria, assim, uma viagem impossível, nos dois sentidos, falta de dinheiro e falta de coragem.
Mas o mundo dá muita volta e até o impossível acontece. Um dia, entrei num concurso promovido por uma empresa que oferecia ao sorteado um prêmio equivalente a uma boa quantia em dinheiro. Seria uma surpresa. Para concorrer bastava preencher um cupom e enviá-lo aos promotores. E foi o que fiz. Algum tempo depois, fui comunicado por telegrama, telefone e e-mail, que eu tinha sido o grande sorteado. O prêmio? Justamente uma viagem aos states, com tudo pago, na maior mordomia. A viagem ocorreria dois meses depois. Eu teria um bom tempo para me preparar convenientemente.
Nem é preciso confessar que minha cabeça ficou rodando a partir daquele momento. Consultei psicólogo, psicanalista, psiquiatra, fiz um cursinho rápido de inglês para me defender nas horas mais difíceis e fiquei aguardando com muita ansiedade. Na medida em que o dia da viagem se aproximava, o prêmio parecia se tornar castigo. Poxa, mas eu tinha que ter coragem, não me acovardar!
E chegou o “grande dia”. Muitos parentes e amigos foram me levar ao aeroporto. As pernas tremiam e eu tinha que apertar uma contra a outra para que ninguém percebesse. Entrei no avião, me acomodei e discretamente passei a olhar para as outras pessoas, para ver como se sentiam.
Que decepção! Em cada um eu percebia a alegria, a descontração. Uns conversavam, outros liam jornal e muitos apreciavam a paisagem. Eu só ousava olhar para dentro da aeronave, palavra que me causava calafrio.
O monstrengo levantou vôo. Eu ali, me segurando com todas as forças à poltrona, como se isso me protegesse de algum contratempo. O ronco que ele produzia soava como estrondo na minha cabeça. A vontade de visitar o sanitário era muito grande, mas cadê a coragem? Olhei no relógio para concluir se já estava chegando. Eram três minutos de viagem somente. Parecia uma eternidade.
Meu colega de poltrona já dormia o sono dos anjos. Roncava descaradamente. A impressão que eu tinha era de que o avião iria bater numa montanha, cair no mar ou que a minha poltrona se desprenderia com tudo em baixo dela e eu desceria como um raio. Caindo na terra, me espatifaria; no mar, só pararia quando chegasse ao fundo.
Cada vez que a aeromoça passava ou anunciava alguma coisa, meu coração vinha à boca e batia como sino de igreja, de tão forte, temendo uma notícia desagradável sobre o vôo.
Para um relativo alívio, de repente ela fez um anúncio que alvoroçou todos os passageiros. Havia uma ameaça de bombas em todos os aeroportos americanos e o avião teria que regressar à base. Não tinha outra alternativa.
Não, meu medo não teve fim aí. Teria pela frente - ou para trás - mais 30 minutos de viagem.
Finalmente, o “grandalhão” foi descendo, descendo, meu estômago embrulhando cada vez mais, minha cabeça fazendo voltas. Eu aguardava inquieto seu último balanço.
Desci as escadas faceiro, voltava à vida naquele instante, mas quando pisei o último degrau o celular tocou. Era da empresa que me concedera o prêmio. Comunicavam-me que o problema das bombas nos aeroportos americanos era
um simples trote e que a viagem seria recomeçada dali a uma hora.
Max Teixeira, da redação de A VOZ DA CIDADE, é membro do Grêmio Barramansense de Letras, da Academia Barramansense de Letras e da Academia Barramansense de História |
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