No consultório
Ele estava no consultório médico até certo ponto tranqüilo, muito embora carregasse em seu íntimo certa mágoa de seus pais que vinha desde seu batismo e nessas horas tudo vinha à tona. Pensava: “Um dia me livro dessa marca filha da mãe”. Aí acabava se lembrando com remorso daquela que o pôs no mundo, que há pouco o deixara para sempre, mas que em vida sempre só quis seu bem.
Passados alguns minutos, a secretária dos médicos – eram vários ali – começou a chamar os clientes que estavam na frente, que haviam chegado antes. “Agora é hora!”, pensou ele.
- Stefania Ribeiro! – chama a secretária. E Stefania entra numa sala para ser atendida.
Minutos depois, nova chamada:
- Anderson Clemente! – e ele pensou: “Isso é que é nome de gente”.
- Armando Pinto! - e ele riu baixinho: “Pra mim isso é palavrão”.
- Glória do Brasil! – a sala inteira ri, discretamente. E dona Glória entra no consultório.
- Flor do Jardim! – Aí ele começou a ficar preocupado e pensou: “Parece que isso é proposital. Por que agora só chamam quem tem nome ridículo? Valha-me Deus!”
- Juriti dos Campos! – “Meu Deus do Céu!”, lamenta.
- Sônia Abrantes! – “É, parece que melhorou um pouco”, se anima.
- Edson Arantes! – “Virou futebol!” - sempre ele tinha um comentário para si mesmo.
-Anaximandro Aristóteles! - “Pronto, chegamos à Grécia!”
- Roberto Carlos! – “São tantas emoções!” – ele gostou.
De repente, observa que não havia mais ninguém na sala. Chegava a sua vez. “Seja o que Deus quiser”, suspirou. “Pelo menos só a secretária e o médico vão se divertir”, se consolou.
- Seu Um Dois Três de Oliveira Quatro!
E a secretária explodiu numa gargalhada.
Max Teixeira, da equipe do A VOZ DA CIDADE, é membro do Grebal e das academias de Letras e de História de Barra Mansa
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