De novo
Algum tempo atrás, aqui mesmo no A VOZ DA CIDADE, publicávamos esta coluna. Agora, voltamos com esse trabalho quinzenalmente, esperando que consigamos proporcionar momentos de entretenimento aos nossos leitores. Buscaremos dar divulgação aos trabalhos de nossos colegas do grêmio (Grebal) e do que há de melhor na literatura de modo geral, sempre com textos curtos, de acordo com o espaço disponível. Hoje, de início, publicamos um conto de um “monstro” chamado Millôr Fernandes, denominado O socorro, extraído do seu Fábulas Fabulosas.
Ele foi cavando, cavando, cavando, pois sua profissão, caveiro – coveiro – era cavar. Mas, de repente, na distração do ofício que amava, percebeu que cavara demais. Tentou sair da cova e não conseguiu. Levantou o olhar para cima e viu que sozinho não conseguiria sair. Gritou. Ninguém atendeu. Gritou mais forte. Ninguém veio. Enrouqueceu de gritar, cansou de esbravejar, desistiu com a noite. Sentou-se no fundo da cova, desesperado.
A noite chegou, subiu, fez-se o silêncio das horas tardias. Bateu o frio da madrugada e, na noite escura, não se ouvia um som humano, embora o cemitério estivesse cheio dos pipilos e coaxares naturais dos matos. Só pouco depois da meia-noite é que lá vieram uns passos. Deitado no fundo da cova o coveiro gritou. Os passos se aproximaram. Uma cabeça ébria apareceu lá em cima, perguntou o que havia: “O que é que há?”
O coveiro então gritou desesperado: “Tire-me daqui, por favor. Estou com um frio terrível!”
“Mas coitado!” – condoeu-se o bêbado – “Tem toda razão de estar com frio. Alguém tirou a terra de cima de você, meu pobre mortinho!” E pegando a pá encheu-a de terra e pôs-se a cobri-lo cuidadosamente.
Moral: nos momentos graves é preciso verificar muito bem a quem se apela.
Max Teixeira, membro do Grêmio Barramansense de Letras, da Academia Barramansense de Letras e da Academia Barramansense de História – e-mail: maxteixeira05@gmail.com |