Maturidade com muito talento
O talento literário de Wanderlino Teixeira Leite Neto, reconhecido nacionalmente, foi demonstrado mais uma vez após ele ter sido premiado, no ano passado, no concurso Talentos da Maturidade, do Banco Real. A fertilidade literária de Wanderlino é impressionante, tanto que já publicou nada menos que 18 livros. Com ligação familiar com Quatis, inclusive há uma rua naquele município com o nome de seu avô, Wanderlino já participou de coletânea do Grêmio Barramansense de Letras (Grebal) e seu livro Forca de Seda tem uma apreciação do presidente do nosso grêmio, J. M. do Lago Leal. Ele venceu o concurso do Banco Real com o poema abaixo. A seguir, mais algumas poesias de sua autoria.
Certos guardados
Numa prateleira, abrigo a compoteira
que minha mãe ganhou em suas núpcias.
Tem cores múltiplas e uns motivos chineses.
Guardo nela um chumaço de saudade, cacos de vida,
um certo abraço, uma foto esmaecida, guloseimas.
Algumas vezes, pequenas teimas
e uma pálida esperança que trago comigo da mais tenra idade.
Também um sonho que persigo desde antigamente.
Afora uma lembrança impertinente que não vai embora.
-x-x-x-x-x-
Haicais rurais
Muge um boi ao longe
e o som ecoa no vale.
Vibração da vida!
Rompe-se o silêncio.
ao som do sino e do galo,
amanhece o dia.
Na cerca eriçada,
alheio às farpas do arame,
pousa leve um pássaro.
Veste luto o anum?
Ou curte o baile da vida
em traje de gala?
-x-x-x-x-x-
No fio da navalha
Tudo por um fio.
Vida é navalha,
é sangria desatada,
é água a escoar da talha,
é suor, é calafrio.
Num sopro, tudo se transforma em nada:
se existe a escada, pode haver o tombo;
há o edifício e o escombro;
a paz e o assombro.
Tudo se baralha:
o abadá e a mortalha;
o berço e o ataúde,
começo e finitude.
-x-x-x-x-x-x-
Singeleza
Darei folga às excelências
e todas as urgências serão adiadas.
Quero caminhar sem rumo,
impregnar-me da poeira das estradas.
Vou ignorar a retidão do prumo.
Quero estar à beira dos precipícios,
em equilíbrio de cabra vadia.
Para pontuar meu dia,
não desejo o fim, mas os inícios.
Pleno de tolerâncias,
montarei um mosaico de desimportâncias.
Também dispensarei as claques
e subirei ao sótão à cata de uns badulaques.
Sem alarde,
vou rebuscar avessos no final da tarde,
alinhavar lembranças,
refazer pegadas de antigas andanças. |