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Max Teixeira - literatura@avozdacidade.com

Remédio do céu é sempre mais barato’
           
Talvez o livro de maior sucesso de José Cândido de Carvalho tenha sido O coronel e o lobisomem, que rompeu barreiras e chegou ao cinema. Mas há os divertidíssimos Olha para o céu, Frederico!, Um ninho de mafagafes cheio de mafagafinhos e Porque Lulu Bergantim não atravessou o Rubicon. Deste último é o “causo” que estamos publicando hoje, intitulado Remédio do céu é sempre mais barato:
E deu-se que o capitão Nicolino Borba, de Sacopé de Monte Verde, sentiu uma agulhada no peito, caiu e dado como morto foi. Quando era levado para o cemitério, eis que o capitão desabrochou por entre flores e grinalda aos berros e já fazendo inquirições. Como era muito usurário, de não dar bom dia para não gastar o solado da língua, logo entrou de perguntativo em pauta:
- Que negócio é este? Que despautério é este? Enterro de primeira, com caixão de veludinho e um jardim de rosas por cima, é para estuporar. É despesa muita para um defunto só. Desperdício!
Correu gente, veio o médico de maleta na mão e no caixão mesmo examinou o usurário. Logo na primeira ouvidada que aplicou na armação dos peitos de Nicolino, viu que andava bem vivo e em bom estado de uso. E aproveitou para falar dos perigos que o capitão corria. E com autoridade de receitador de poções:
- Desta o capitão escapou. Mas lhe digo que não vai muito longe se não fizer tratamento urgente, como requer sua doença. É o que lhe digo! Não vai muito longe.
Bem encastoado no veludo do caixão, Nicolino perguntou:
- Se não é falta de respeito, doutor, em quanto fica essa medicina?
- Oitocentos contos para um tratamento completo.
E Nicolino:
- Toca o enterro, minha gente. Por esse preço prefiro morrer, que remédio no céu é mais barato.

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Outro “monstro” da literatura brasileira chama-se Millôr Fernandes, um humorista que, lembrando uma gíria do futebol, “bate em várias posições”, um gênio. Dele escolhemos um texto curto de seu livro Fábulas fabulosas, denominado O socorro, que vai abaixo:
Ele foi cavando, cavando, cavando, pois sua profissão, coveiro – era cavar. Mas, de repente, na distração do ofício que amava, percebeu que cavara demais. Tentou sair da cova e não conseguiu. Levantou o olhar para cima e viu que sozinho não conseguiria sair. Gritou. Ninguém atendeu. Gritou mais forte. Ninguém veio. Enrouqueceu de gritar, cansou de esbravejar, desistiu com a noite. Sentou-se no fundo da cova, desesperado.
A noite chegou, subiu, fez-se o silêncio das horas tardias. Bateu o frio da madrugada e, na noite escura, não se ouvia um som humano, embora o cemitério estivesse cheio dos pipilos e coaxares naturais dos matos. Só pouco depois da meia-noite é que lá vieram uns passos. Deitado no fundo da cova o coveiro gritou. Os passos se aproximaram. Uma cabeça ébria apareceu lá em cima, perguntou o que havia: “O que é que há?”.
O coveiro então gritou, desesperado: “Tire-me daqui, por favor. Estou com um frio terrível!”
“Mas coitado!” – condoeu-se o bêbado – “Tem toda razão de estar com frio. Alguém tirou a terra de cima de você, meu pobre mortinho!” E pegando a pá encheu-a de terra e pôs-se a cobri-lo cuidadosamente.
Moral: nos momentos graves é preciso verificar muito bem a quem se apela.


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