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VOLTA REDONDA - No seu quarto dia de greve, o Sindicato dos Metalúrgicos e os trabalhadores se depararam com um verdadeiro paredão de segurança. Mais de 30 policiais estiveram presentes em todas as entradas da Companhia Siderúrgica Nacional (CSN) durante assembléia realizada ontem, às 7 horas.
Todos mostraram sua revolta: sindicato e trabalhadores. O diretor do sindicato Bartolomeu Citeli garantiu que o movimento vem agindo de forma pacífica, enquanto a empresa tenta coagir e inibir os funcionários. “O sindicato está com os trabalhadores para melhorias e vamos resistir. De um lado estão os trabalhadores, pacíficos, do outro dezenas de policiais vestidos para a briga. Essa polícia tem que tomar conta de bandidos, não de trabalhadores que lutam por seus direitos”, declarou.
O trabalhador Almir dos Santos, 51 anos, compartilha da opinião do sindicalista. Almir considera o ato um retrocesso e uma forma de inibir os trabalhadores. “Parece que estamos na ditadura, quando se colocava medo nos trabalhadores. Não precisava disso, pois a greve não está sendo agressiva. Isso mostra o desrespeito que a empresa tem com a cidade e com os trabalhadores, afinal, lugar de polícia é atrás de bandido”, arrematou.
O vice-presidente do sindicato, Walderli Alves Jordão, informou também que na madrugada de ontem muitos funcionários que estavam retidos na CSN foram liberados após a empresa tomar conhecimento que uma comissão formada pelo Ministério Público e deputados faria uma vistoria na Usina. “A CSN age dessa forma”, diz, acrescentando que o sindicato está presente nos acessos da empresa, conscientizando os trabalhadores para não cederem às pressões e aderirem à greve requerida pela maioria dos metalúrgicos.
Há funcionários, porém, que afirmam que não existe pressão da CSN para reter funcionários e que alguns trabalhadores estão apreensivos com a posição do sindicato. Segundo a assessoria da CSN, há seis registros na delegacia de Volta Redonda de funcionários que foram agredidos por integrantes dos piquetes. A equipe de A VOZ DA CIDADE tentou, durante a noite, verificar essas possíveis agressões, mas na delegacia disseram que essa informação só poderia ser obtida até as 17 horas.
A assessoria ainda informou que a presença de policiais na porta da empresa foi uma determinação da Justiça e a CSN não convocou nem pediu o policiamento extra. Segundo a assessoria não existem trabalhadores retidos na empresa e os turnos estão sendo normais, de oito horas. Com relação à produção, a companhia está trabalhando com 100% de sua capacidade diária, ou seja, 15 mil toneladas. Sobre a possível vistoria realizada pelo Ministério Público e deputados, a CSN não foi notificada e a inspeção não aconteceu ontem.
Luta dos trabalhadores
Após 17 anos de aceitação passiva, a Companhia Siderúrgica Nacional (CSN) deparou com uma atitude inesperada dos trabalhadores que optaram por deflagrar a greve em votação secreta. Em três dias o movimento completa uma semana de manifestações pacíficas, com os operários lutando pelo que almejam.
Após dois meses de negociação, a empresa não ofereceu uma proposta compatível com o desejo dos trabalhadores, que querem reajuste salarial pelo INPC, mais 6% de aumento real e 33% de reposição por perdas salariais. A última proposta da CSN foi conceder 5% e abono de R$ 2 mil. Ela foi rejeitada por 3.370 funcionários. No total, 6.205 trabalhadores votaram, sendo registrados 17 votos nulos e dois em branco.
A greve recebeu o apoio das comunidades locais, dos bispos Dom Waldir Calheiros e Dom João Maria Messi, do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem-Terra (MST) do acampamento Irmã Doroty - nas imediações da cidade, e da sociedade em geral. Nas caminhadas realizadas pelas ruas da cidade, a população demonstrava a solidariedade, aplaudindo a greve.
Durante as assembléias realizadas houve grande participação dos funcionários e, mesmo com a presença dos gerentes e da chefia, demonstraram indignação às propostas oferecidas e manifestaram sua disposição para lutar. “O sindicato luta pelos trabalhadores e não vamos permitir que os inibam. Não fomos os responsáveis pelo encerramento das negociações, pois a última proposta apresentada pela CSN foi dita como a última”, afirma o presidente do Sindicato dos Metalúrgicos, Renato Soares, acrescentando que em 17 anos os funcionários não ganharam nada agindo passivamente.
Após a greve ser deflagrada, a CSN anunciou que não negociaria com os trabalhadores parados. Renato ressalta, no entanto, que antes de a paralisação ser iniciada eles já haviam encerrado as negociações. “A última palavra foi da empresa. Os trabalhadores não podem se sujeitar a isso. A empresa fica rica à custa do trabalho dos funcionários, e essas propostas mostram o descaso da CSN”, analisa.
HISTÓRIA
O ex-presidente do Sindicato dos Metalúrgicos durante a greve histórica de 1988, Marcelo Felipe, já considera a atual greve vitoriosa, pela força e coragem dos trabalhadores. “Apesar de todos os problemas que os trabalhadores vêm sofrendo, como ameaças e a perda no salário nos dias de greve, eles estão lutando por seus direitos optando pela greve. Isso é um orgulho e um momento histórico”, enfatiza.
Marcelo diz não ser a favor de greve, porém considera o movimento necessário. “Primeiro tem que tentar um diálogo, para ninguém ser prejudicado, porém, quando um lado encerra a questão em impasse, a greve é necessária”, considera.
Agressão
O movimento vinha caminhando sem protestos violentos, mas essa calma foi quebrada segunda-feira, quando Carlos Alberto Antônio, 50 anos, registrou queixa na 93ª Delegacia de Polícia por agressão que teria sofrido de policiais do Batalhão de Operações Especiais (Bope) em serviço no interior da Usina.
A ação desencadeou lembranças do presidente que estava à frente do sindicato em 88. Marcelo lembrou que foi por um gesto violento de um policial que começou a radicalização do movimento. “Um policial puxou a arma para o diretor do sindicato e foi quando os trabalhadores se revoltaram e partiram para cima com tudo. O que aconteceu com Carlos Alberto poderia ter iniciado um conflito como o de 88”, alerta.
Apesar de o sindicato estar pregando uma greve passiva, a assembléia realizada ontem, às 7 horas, na passagem superior, mostrou que a empresa está preocupada. Um piquete com dezenas de policiais militares, além dos guardas da empresa, permaneceu nas entradas da empresa durante todo o evento.
Renda
Reunidos, os trabalhadores da CSN e contratadas somam hoje aproximadamente 15 mil funcionários. Esse número fica muito inferior ao quadro existente antes da privatização. De acordo com Marcelo, em sua época existiam cerca de 30 mil funcionários gerais. Marcelo Felipe conta que o salário dos trabalhadores hoje é menos da metade do que era em sua época. “Por isso, deve-se, sim, lutar por dignidade. Hoje, a exploração é muito maior. Se na minha época um funcionário ganhava R$ 1 mil, hoje ganha R$ 400”, conta.
A situação salarial, unida às demissões nos últimos dez anos, prejudicou a economia da cidade. Nesse período houve queda de circulação, em média, de R$ 50 milhões por ano.
Nova assembléia
O Sindicato dos Metalúrgicos realizará hoje, às 7horas, uma nova assembléia na Praça Juarez Antunes, para decidir sobre o resultado da reunião de ontem com a Companhia Siderúrgica Nacional (CSN) na Delegacia Regional do Trabalho (DRT), no Rio de Janeiro. Na assembléia informativa de ontem, às 18 horas, foi dito aos funcionários que a CSN pediu para que o sindicato reapresentasse a proposta que havia sido feita, mas as negociações estavam num impasse. Segundo a Assessoria de Imprensa da empresa, a proposta está de acordo com a realidade de mercado e é a melhor dos últimos dez anos, não sendo cogitada mudança.
Haverá também, hoje, uma audiência de conciliação no Tribunal Regional do Trabalho (TRT), no Rio, marcada para as 10 horas. Segundo o vice-presidente Jordão, nela o Metalsul, sindicato patronal que reúne as empresas prestadoras de serviços da CSN e o Sindicato dos Metalúrgicos tentarão estabelecer um acordo. Um ônibus sairá, às 6 horas transportando cerca de 50 metalúrgicos para participarem da audiência no Rio.
De acordo com Jordão, durante a reunião entre o Sindicato dos Metalúrgicos e a CSN na DRT, que começou às 15 horas e terminou por volta das 21, a proposta da CSN foi mantida. A assessoria do sindicato divulgou que o INPC de 3,44%, mais um reajuste de 1,5%, totalizando um aumento real de 5% e abono de R$ 2 mil, continua sendo a proposta da CSN, que teria concordado em alterar o tempo atual de 30 minutos de horário de almoço para uma hora. A medida vai gerar, segundo a assessoria, 400 novos postos de trabalho.
Greves marcantes
Durante a história da CSN, duas greves marcaram a história: as de 1988 e 1990. O movimento de 1988 ficou marcado devido à violência que acarretou a morte de três trabalhadores: Carlos Augusto Barroso, 19 anos, com o crânio esmagado; Walmir de Freitas, 27, atingido pelas costas; e Willian Fernandes, 22, com uma bala no pescoço.
A greve, que durou 17 dias (de 7 a 24 de novembro), teve como líder o sindicalista Juarez Antunes e o movimento teve repercussões nacionais e internacionais. Nesse período, as reivindicações eram semelhantes às atuais: reajuste salarial com base no índice do Dieese; reposição salarial de 26,06% do expurgo da inflação; jornada de trabalho de 40 horas semanais; readmissão dos demitidos em agosto de 1987; reconhecimento oficial dos representantes sindicais eleitos; e a divulgação do Sistema de Classificação de Cargos e Salários.
A greve de 1990 não teve o resultado esperado e é considerada pelo presidente do sindicato da época, Wagner Barcelos, frustrante. Wagner explica que foram 30 dias de greve durante um período em que o sindicato estava enfraquecido. “Fomos mal instruídos, a diretoria estava rachada, lutamos pelos trabalhadores, mas não obtivemos o êxito que queríamos”, afirma.
A atual greve dos trabalhadores da CSN está entrando em seu quarto dia, sem previsão de término e sem novas propostas.
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