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Francis Bullos fala sobre acusações
Tranqüilo e calmo, vereador conta que foi preso sem mandado de prisão

  Foto: Lara Guimarães

CAROL MACEDO
BARRA MANSA - Na manhã de ontem, o vereador Francis Bullos (PRP) recebeu com exclusividade a equipe de reportagem do A VOZ DA CIDADE em sua casa, no bairro Santa Rosa. Bastante tranqüilo, ele falou sobre a acusação de lavagem de dinheiro e de integrar uma quadrilha armada. Francis foi levado pela Polícia Federal, dentro da Operação Segurança Pública S/A, como foi chamada, na manhã da última quinta-feira, para a superintendência do órgão no Rio de Janeiro, onde permaneceu até sexta-feira, por volta das 18h30min, quando seria transferido para o presídio de Bangu 8. Às 19h02 de sexta-feira, ainda no carro para ser transferido, o vereador foi informado que havia sido acatado um alvará de soltura.

O vereador iniciou a entrevista dizendo que às 6h15min da última quinta-feira a Polícia Federal chegou a sua casa. Ele disse que não foi surpreendido porque sua filha Sissy Toledo de Macedo Bullos Lins – também mencionada por lavagem de dinheiro - havia informado que a polícia estava em sua casa. “Comigo eles foram muito corteses, com outras pessoas, não. Revistaram cada cômodo da minha casa e não encontraram nada. Levaram a escritura desta casa que tenho desde 10 de dezembro de 1983, e uma bala de fuzil que era do meu irmão que faleceu. Tenho cinco computadores e não levaram nenhum deles”, destaca.

Bullos conta que os policiais ficaram frustrados por não terem encontrado nada que pudesse acusá-lo. Mesmo assim, ele acredita que já havia uma ordem, uma intenção para sua prisão. “Eles estavam com mandado de busca. Em um determinado momento me perguntaram se eu era proprietário do apartamento na Rua 5 de Julho, no Rio (onde moram o deputado Álvaro Lins e sua esposa, a filha de Bullos). Eu disse que sim, que havia comprado e colocado no nome de minha mãe (Maria Canali Bullos). Eles disseram então que deveria acompanhá-los ao Rio. Perguntei se estava sendo preso e disseram que sim. Então pedi o mandado de prisão e disseram que não tinham”, conta.

Depois disso, Francis Bullos contou que sua assessora já estava ligando para uma sobrinha sua, defensora pública, que solicitou ao chefe da Defensoria Pública do Estado que averiguasse a situação. Segundo o vereador, o chefe questionou o responsável pela operação pela prisão sem mandado, o que foi em vão, já que ele desligou o telefone sem ao menos responder.

Questionado sobre a fala da Polícia Federal de que foi preso em flagrante, Bullos declarou que não entendeu qual foi tipo de flagrante, já que foi acusado de lavagem de dinheiro em um apartamento comprado em 2005, o que descaracteriza o flagrante. “Acredito que não estamos mais vivendo em um estado de direito. Se ele existisse de verdade a Polícia Federal não agiria dessa maneira, em que prende sem mandado de segurança, em que dá prisão em flagrante em crimes que ocorreram supostamente há três a quatro anos”, critica.

Já no Rio de Janeiro, Francis Bullos contou que começou a ser ouvido por dois delegados, acompanhado dos advogados Sebastião Alves e Eduardo Linhares. “Eles me disseram que poderia não responder nada, mas não tenho porque me calar. Não faz o meu estilo ficar calado. Dei as declarações e o delegado me ofereceu a delação premiada. Eu disse a ele que tenho 60 anos e não delatei ninguém até hoje e não vou delatar minha filha, meu genro, que considero meu filho. Depois me disseram que ficaria detido”, diz. Por volta das 21 horas foi levado para uma sala de concreto e grade, sem banheiro, onde passou a noite na companhia de Álvaro Lins e o ex-chefe da Polícia Civil Ricardo Hallak.

MOTIVOS
Francis Bullos é acusado de lavagem de dinheiro e formação de quadrilha armada. Ele explicou o primeiro motivo, originado da compra do apartamento onde vivem atualmente Álvaro e Sissy. Ele esclareceu que emprestou o local aos dois e por isso foi acusado de servir como laranja do então deputado. O apartamento está no nome da mãe de Bullos e por isso ela ingressou no processo. De acordo com o vereador, Maria Canali Bullos é sua dependente desde 1995 e não desde 2002, como a imprensa de modo geral informa.

“Embora ela não precisa de mim formalmente, já que recebe mais R$ 1 mil de pensão do meu pai, o Geap é um plano mais barato de saúde. Ela tem 82 anos e o plano exige que o usuário fosse dependente de alguém. O que aconteceu é que minha irmã não sabia desse fato e fazia a declaração de Imposto de Renda de isento da minha mãe”, informa. O segundo motivo é porque ao se separar, em 2000, fez a partilha da sua casa no bairro Santa Rosa para os seus cinco filhos, sendo que Sissy e Maíra, filhas de outro casamento, ficaram com 10% e os outros com 26%. Se colocasse em seu nome o apartamento de R$ 590 mil que comprou em 2005, poderia abrir brecha para revisão de pensões.

A colocação do seu nome na acusação de quadrilha armada foi por apenas dar recado de Álvaro Lins e Garotinho. Numa ocasião o vereador conta que estavam todos em Barra Mansa em um comício, em 2006, e Garotinho comentou com Álvaro que a governadora Rosinha Garotinho precisava mudar dois delegados e transferir outro. O Álvaro ligou para o Hallak, então chefe da Polícia Civil, e o colocou na linha com o ex-governador. Depois, quando Francis foi ao Rio de Janeiro conversar com Garotinho sobre outros assuntos o seu genro, Álvaro Lins, disse que não conseguia falar com Garotinho e pediu a ele que desse o recado de que o pedido da governadora estava para ser feito. “Eu transmiti o recado e até o Garotinho disse que a governadora deixaria passar as eleições. Qual a minha função de político? Quantas vezes a câmara de Barra Mansa não tem ocorrido ultimamente, pediu para trocar comandante da PM e delegado por alguma morte ocorrida ou outro fator?”, questiona.

Sobre a gravação telefônica na qual aparece o deputado Álvaro Lins em conversa com o ex-governador Garotinho questionando sobre o pedido de Francis para a 90ª DP, de Barra Mansa, o vereador diz que não se lembra do pedido e declara que mesmo que tivesse feito isso, qual seria o problema em solicitar alguma coisa?

BENS
Sobre os bens que o vereador tem atualmente em seu nome ele respondeu que não possui nenhum, já que passa tudo para os nomes de seus filhos. Ele contou que em 2004 comprou uma casa em Angra dos Reis para sua filha Sissy, para compensar a pouca porcentagem que recebeu na casa do Santa Rosa. A casa custou R$ 79 mil. “Doei o dinheiro a ela e coloquei no Imposto de Renda essa doação. Tinha renda para isso e fiz. Comprei neste ano duas lojas em Barra Mansa que coloquei no nome da minha filha Blanca. Tudo pago, dentro da minha renda”, conta.  

Francis diz que seu patrimônio é imobilizado em dinheiro e jóias, que herdou de seu pai, falecido em 1997 e que era proprietário de uma firma, uma joalheria, duas lojas de tecidos, um sítio em São Gonçalo, uma sapataria, um açougue e um armarinho. Todos os bens foram repassados em vida para os filhos. “A única coisa que fiz, porque não sei o que pode acontecer amanhã, foi deixar esse apartamento no nome da minha mãe porque quando me aposentar quero ficar no Rio e em Barra Mansa”, justifica.

Bullos ainda fez uma avaliação rápida dos bens que acumulou antes de conhecer Álvaro Lins. Foram em média 24 imóveis e diversos automóveis que sua memória não guarda mais e que chegam a dezenas, tudo declarado na Receita Federal. “Me formei em 1974, na Escola de Medicina de Cirurgia do Rio de Janeiro, construí meu patrimônio hoje distorcido em decorrência de denúncias absurdas”, garante, completando que Álvaro Lins surgiu em sua vida em setembro de 2001, quando começou a namorar sua filha.

Sissy, segundo o vereador, já era médica atuante e trabalha atualmente no Hospital do Câncer da Penha, no Centro de Mastologia da Barra da Tijuca, na Santa Casa, é capitã do Corpo de Bombeiros e trabalha em outros locais que exigem sua especialidade de radiologista. Por isso, segundo Bullos, a renda dela não é de cerca de R$ 3 mil, como noticiado na imprensa, quando afirmaram que Álvaro e ela teriam uma renda de aproximadamente R$ 7 mil. O vereador ainda lembra que todos os seus bens constam nos arquivos da Receita Federal, desde sua primeira declaração no Imposto de Renda, em 1972. “Quando declarei meu primeiro imposto de renda registrei jóias, obra de arte e um apartamento que tinha comprado no Rio de Janeiro quando ainda não era formado e já trabalhava”, destaca.

Com base no que conseguiu ao longo desses anos, Francis questiona se não pode emprestar um apartamento a sua filha e seu genro. “Será que o Dr. Álvaro transformou-me em seu laranja quando tinha quatro anos? Quer dizer que construí isso tudo por telepatia?”, pergunta.

PROCESSO
Francis Bullos, apesar de ter sido solto, ainda responderá a processo por lavagem de dinheiro e por quadrilha armada. Ele acredita que o processo vá demorar, mas tentará desmembrar o seu e provar sua inocência. “As pessoas foram induzidas ao erro pelo açodamento que tinham de condenar o ex-chefe de polícia – Álvaro Lins, as pessoas ligadas a ele e vislumbrar nisso tudo uma quadrilha que não existe. Diz o Garotinho que vai dizer quem é essa pessoa por trás disso tudo. Eu suspeito. É briga do Palácio do Planalto com o governador Garotinho”, denuncia, citando que o maior esquema de lavagem de dinheiro ocorreu há pouco tempo, com Delúbio Soares, José Dirceu e Marcos Valério, todos citados no esquema do Mensalão. Segundo o vereador, a Polícia Federal não foi a casa de nenhum deles para prendê-los. “Isso tudo é causado por uma questão, no meu entender, que só pode ser política”, desabafa.

ENTENDENDO O CASO
Também na última quinta-feira, os policiais prenderam em flagrante o deputado estadual Álvaro Lins (PMDB), em sua casa, em Copacabana, acusado de lavagem de dinheiro, formação de quadrilha armada, corrupção passiva e facilitação ao contrabando. Ele foi solto na sexta, à tarde, depois da aprovação do Decreto Legislativo da Alerj dando liberdade a Álvaro, por entender que deputados só podem ser presos em flagrante por crimes inafiançáveis. 

Em entrevista coletiva na quinta-feira, o superintendente da Polícia Federal, delegado Valdinho Jacinto Caetano, disse que Francis é acusado de ser um dos “laranjas” de Álvaro, juntamente com a ex-mulher do deputado, Luciana Gouveia dos Santos, também detida em flagrante no Rio e que foi solta no mesmo dia.  A Operação Segurança Pública S/A deveria cumprir sete mandados de prisão preventiva e 16 mandados de busca e apreensão, expedidos pelo Tribunal Regional Federal da 2ª Região (TRF-2), depois de denúncia oferecida pelo Ministério Público Federal. Desses, a polícia informou que o ex-governador do Rio de Janeiro Anthony Garotinho foi denunciado pelo crime de formação de quadrilha armada, garantindo politicamente a manutenção do grupo de Álvaro Lins à frente da Polícia Civil, quando era chefe da pasta na gestão de Garotinho e de Rosinha Garotinho.

TEXTO DO VEREADOR, NA ÍNTEGRA - AO POVO DE BARRA MANSA
“Quero dizer, por intermédio do A VOZ DA CIDADE,  em primeiro lugar um jornal a que tenho respeito, que tem a consciência de uma imprensa do futuro, já fui homem de impressa, e acredito que a imprensa de futuro é aquela que dá oportunidades iguais a todos de se manifestarem, que solta a notícia com a crueza dos fatos, mas que dá à outra parte a oportunidade de poder se defender, coisa que infelizmente não vemos na maioria da imprensa da nossa região. O  A VOZ DA CIDADE, por intermédio do seu diretor, João Pançardes, primeiro me ouviu para depois noticiar, porque o jornal conhece a minha reputação, assim como o povo de Barra Mansa.

Desde o tempo em que era estudante, fui um dos membros da Associação Metropolitana dos Estudantes Secundários e lutei contra a ditadura nos piores momentos. Vejo que tudo aquilo pelo qual lutei na minha juventude parece que foi embora, quando justamente aqueles que se dizem perseguidos daquela época instalados no poder acabam instalando um sistema policial que não é democrático. O que fica é que a população de Barra Mansa me conhece e respeita e sabe dos meus passos. Fico feliz com as manifestações de solidariedade que tenho recebido.”

                                                                                  Vereador Francis Bullos

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